Tia Lucy (de camisa xadrez) recebe Canarinho em seu programa dominical, o ''Festival Infantil''
A história da televisão em Londrina perdeu ontem um de seus personagens mais queridos. Marlene Ribas, a Tia Lucy, apresentadora do programa Festival Infantil nos anos 60/70, morreu ontem aos 67 anos, no Hospital do Câncer. O corpo foi velado na Acesf e sepultado ontem à tarde no cemitério São Paulo.
Tia Lucy é referência para uma geração que testemunhou os primórdios da TV. Do seu programa participaram nomes hoje de projeção, como o pianista Marco Antônio Almeida, por exemplo. Os bailarinos do Adanac - escola de dança londrinense fundada há 34 anos - eram seus convidados frequentes. ''Todo domingo, com sol ou chuva, lá estávamos nós, no auditório da TV Coroados'', lembram Yeda Russo e Inês de Almeida, diretoras da escola. ''A Tia Lucy faz parte da história do Adanac'', resume Yeda.
Os antigos colegas de trabalho lembram da Tia Lucy com saudade. ''Ela era uma companheira excelente e muito responsável na sua maneira de se comunicar com o público infantil. Levava a vida muito a sério e na TV sua postura era exemplar. Até a sua linguagem era bem-cuidada, ela fazia questão de usar o português corretíssimo'', diz Ricardo Queirollo, o Palhaço Picolino, que na época apresentava o programa Circo Show Mercantil Castelo Branco.
Apresentador do Festival de Música Sertaneja, Aymoré Kley, outro contemporâneo de Lucy Ribas na TV (depois de um tempo, o ''Lucy'' incorporou-se ao nome dela) conta que, apesar de estarem fora da telinha há anos, não perderam totalmente o contato. ''Foi uma grande perda'', lamenta.
''Tia Lucy surgiu para uma geração que viu surgir a TV como um rádio com cara, quando tudo, na telinha, tinha o gosto e a pureza de primeira vez'', comenta o radialista José Makiolke. ''Não era melhor nem pior do que ninguém; era só ela, a tia, quando o termo tia ainda não havia sido banalizado. Lucy era a verdadeira tia, no sentido de afetividade'', acrescenta. Para quem tem menos de 40 anos e não sabe quem foi essa mulher tão carismática, ele explica: ''Ela pertence a um tempo em que a TV era inocente. Se é que é possível, hoje, imaginar uma TV inocente ou acreditar que ela foi assim um dia.''
''Uma guerreira. Tinha um coração generoso e muita ética e dignidade'', afirma a astróloga Yara Ramos, grande amiga da apresentadora. ''Levava uma vida saudável e nunca pensava duas vezes antes de ajudar o próximo.''
Essa generosidade de Lucy Ribas deu origem a algumas histórias. Lenda ou não, conta-se que ela ganhou na loteria esportiva e que teria dividido o prêmio com amigos que precisavam de dinheiro.
O que ninguém sabe, entretanto, é por que ela abandonou a telinha. A única filha, Marilice Ribas Leite, hoje com 49 anos acredita que Lucy talvez não concordasse com o rumo que a televisão ia tomando e resolveu se afastar. E conseguiu viver anos e anos longe da mídia, na chácara onde morava há dez anos com o marido, Oswaldo Ribas. Só não conseguiu apagar sua imagem e seu nome da memória dos que assistiam ou se apresentavam em seu programa. O Marlene de antes ficou só na certidão de nascimento; ela foi para sempre a Tia Lucy.

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