O cinema está muito próximo do cinquentenário de uma ''data histórica'', como a chamava Akira Kurosawa. Em 1951, o Festival de Veneza entregou o Leão de Ouro a ''Rashomon'', e com este prêmio despertou o interesse ocidental pelo cinema japonês. Mas não foi só por seu triunfo pessoal que o mestre, já então com mais de 40 anos, incluía tal marca na história. Foi também graças a esta decisão do júri veneziano que a partir daquele momento invadiriam as telas de todo o mundo obras de Yasujiro Ozu, Kenji Mizogushi, Kon Ishikawa e Masaki Kobayashi. E sobretudo porque o reconhecimento internacional obrigaria os críticos japoneses a rever suas opiniões, além de sacudir os sempre receosos produtores do Japão, forçando a renovação de créditos para novas produções.
Mas não foi a proximidade deste aniversário (Veneza-2001 começa dia 29) que colocou novamente em evidência o nome do grande artista japonês falecido há quase dois anos - também por coincidência durante o festival que o consagrou.. Ocorre que o anúncio concreto de um par de refilmagens de obras do cineasta parece ter instalado uma espécie de moda Kurosawa no meio cinematográfico. Um projeto da Harbor Light Entertainment vai se chamar ''Rashomon: Where the Truth Lies'', tentando recriar aquela parábola sobre a relatividade da verdade e adaptando para o terreno do thriller contemporâneo as quatro versões contraditórias sobre uma emboscada, um estupro e um crime. Nem Kurosawa e nem seus herdeiros tinham cedido antes os direitos do roteiro. Mesmo que o argumento tivesse servido de ''inspiração'' a dezenas de filmes, entre eles ''Quatro Confissões'' (The Outrage), que Martin Ritt realizou em 64 com Paul Newman.
Enquanto os produtores Edwin Marshall e Stuart Calcote buscam o quarteto de intérpretes para iniciar as filmagens em 2002, Martin Scorsese, fervoroso admirador de mestre Kurosawa, prepara a retomada de outra de suas obras, ''Céu e Inferno'', uma reflexão sobre o mal feita a partir de um sequestro e sob a influência do cinema noir, cujo roteiro o próprio Kurosawa havia confiado ao americano há quase uma década. Mas Scorsese vai atuar somente como produtor, e já entregou a direção a Walter Salles. O brasileiro deve se ocupar do projeto tão logo termine as filmagens de ''La Assunção da Virgem'', que roda atualmente com Juliette Binoche e Benicio Del Toro.
E não é novidade, afinal, que Kurosawa seja fonte de inspiração para cineastas do Ocidente. Basta recordar que John Sturges converteu ''Os Sete Samurais'' em ''Sete Homens e Um Destino'', ou que Sergio Leone construiu ''Por Um Punhado de Dólares'' olhando muito de perto para ''Yokimbo, o Guarda-Costas''. A mais recente novidade, em todo caso, está em quem anda imaginando atores virtuais para encarnar os famosos samurais. Hironobu Sakagushi, de ''Final Fantasy'', anda sonhando contar a velha história épica com personagens de aspecto humano, porém nascidos e criados em computador.

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