O mito Leila Diniz é reverenciado há décadas. Na verdade, em raras oportunidades seus 14 filmes foram levados às telas de cinema e à televisão, depois de sua trágica morte, em 1972. Agora, na última fornada de lançamentos em vídeo, chega um de seus maiores sucessos. ‘‘Todas as Mulheres do Mundo’’ (1967), de Domingos de Oliveira, é uma comédia de costumes com alto teor autobiográfico.
A partir desse filme, a ética que Leila defendia passou a ser conhecida nacionalmente, potencializando o surgimento do mito da mulher libertária, sensual, protagonista dos relacionamentos afetivos. Depois disso, o sorriso franco, aberto e feliz virou sinônimo de escândalo. Em ‘‘Todas as Mulheres do Mundo’’, o diretor descortina uma fase histórica de liberação sexual. Paulo (Paulo José) e Edu (Flávio Migliaccio) confabulam sobre amores e conquistas num Rio de Janeiro saudoso. Em flash-backs, emerge a história de Paulo e Maria Alice (Leila Diniz), que se conheceram numa festa de Natal. Imediatamente contagiado pela sua beleza, Paulo tenta ganhá-la de todas as formas. Mas para isso, optou por deixar todas as mulheres do mundo. ‘‘O difícil não é escolher uma. O difícil é desistir de todas as outras’’, sentencia o apaixonado.
Ao mesmo tempo em que o diretor expurga as dores de um amor perdido (Leila foi morar com Domingos aos 17 anos), ele faz um relato pungente sobre a condição feminina, liberdade sexual e o novo papel do homem na sociedade. No filme, sabe-se o motivo pelo qual Leila Diniz foi porta-estandarte da liberdade feminina. Leila sabia jogar com a sensualidade e, no segundo seguinte, ser absolutamente materna.
‘‘Todas as Mulheres do Mundo’’ traz uma dupla de apaixonados transbordando alegria de viver. Mais que isso, com urgência de amar. Nessa curva da história, alguns elementos datados se tornam engraçados, como a Ipanema vazia, Maria Alice dirigindo um Gordini, o som do iê-iê-iê, cabelo dos meninos cortados no estilo ‘‘bodinho’’, crianças cantando samba-le-lê e cenas da novela ‘‘O Sheik de Agadir’’. Mas esse é um filme de sutilezas. Por isso, não envelheceu. Divertido nessa película é reconhecer atores veteranos, atuando em início de carreira como Joana Fomm, Isabel Ribeiro, Ivan de Albuquerque e Marieta Severo. (Distribuição: Versátil Home Vídeo. P&B. Duração: 86 min.)OUTROS LANÇAMENTOS






ReproduçãoRecheada de lugares-comuns norte-americanos, produção atende somente aos consumidores afeitos aos sonhos prontos




Meu Cachorro Skip
Juntar num mesmo filme uma criança carente e um cachorro esperto pode ser meio caminho andado para o sucesso. A pretensão da Warner, com ‘‘Meu Cachorro Skip’’, dirigido por Jay Russel, reuniu esses elementos numa fórmula desgastada, nem por isso abandonada. Juntaram ainda os símbolos da perfeição americana: jogador de beisebol, heróis de guerra e foras-da-lei com barba por fazer sendo punidos.
Em ‘‘Meu Cachorro Skip’’, o tímido e fracote Willie Morris (Frankie Muniz) narra como conseguiu se integrar aos valentes garotos da rua e se aproximar da garota mais bonita da escola, graças à presença do cãozinho Skip. O animal serve de escudo para os perigos do mundo. Em casa, Willie vive dividido entre o pai metido a durão (Kevin Bacon, em mais uma interpretação gélida), e a compreensiva mãe (Diane Lane).
‘‘Meu Cachorro Skip’’ foi baseado na biografia de Willie Morris, famoso editor da revista Harpers. A versão cinematográfica, morna e sem entusiasmo, atende somente aos consumidores que saem em busca de sonhos prontos. A história asséptica não alimenta a idéia de posteridade dos personagens, termina literalmente no ‘‘the end’’, sem deixar vestígios.
Cartomantes e videntes devem passar fome nos Estados Unidos, com a vidinha tão previsível dos americanos. Pelo menos, é a visão que eles insistentemente vendem aos compradores passivos de todo o mundo. (Distribuição da Warner. Duração: 95 minutos)



ReproduçãoEmocionante obra do diretor Zhang Yimou mostra, sobretudo, a globalização da miséria com sotaque mandarim







Nenhum a Menos
Outro filme protagonizado por criança, ‘‘Nenhum a Menos’’, do consagrado diretor Zhang Yimou (‘‘Lanternas Vermelhas’’), apresenta uma iguaria da cinematografia chinesa. O diretor sorveu a história do livro ‘‘Existe um Sol no Céu’’, de Shi Siang Sheng. Numa inacessível aldeia chinesa, um professor sai de licença por um mês e tem como substituta a garota Wei Minzhi, de 13 anos. Jogada num sistema de ensino intimidador, a inocente Wei tem como missão não deixar nenhum aluno a menos na turma. Massacrados pela economia excludente, os alunos abandonam a escola dia após dia,
O endiabrado Zhang Huike foge para a cidade grande e Wei sai na caça do aluno foragido. Incansável e obstinada, a professorinha dá uma verdadeira lição de coragem, mostrando o abismo cultural de um sistema de ensino ultrapassado. Pode-se ver a globalização da miséria com sotaque mandarim.
‘‘Nenhum a Menos’’ oferece inúmeras leituras. Uma delas, pode ser a de que não se pode infringir o atual sistema político chinês. Qualquer passo em falso deve ser intimidado. O autor das infrações deve voltar obedientemente para casa. Independente dessa leitura, ‘‘Nenhum a Menos’’ oferece uma oportunidade inerente do grande cinema, a de nos fazer sentir vivos novamente. O filme emocionou o júri do Festival Internacional de Veneza, de 1999, que agraciou merecidamente o filme com o Leão de Ouro. O filme de 106 minutos obriga um consumo considerável de lenços descartáveis. (Distribuição: Colúmbia).

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