Para o que der e vier
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quarta-feira, 07 de setembro de 2011
Márcio Maio <br> TV Press 
A ideia da mulher como sexo frágil está cada vez mais distante na teledramaturgia. O tempo em que a maioria das cenas de mocinhas se resumia a conflitos românticos e quase sem ação definitivamente ficou para trás. Desde a heroína que trabalha como ''marido de aluguel'' - fazendo pequenos consertos hidráulicos e elétricos, entre outros - e é chamada de Pereirão, como em ''Fina Estampa'', à jovem que se envolve na guerrilha contra a ditadura militar, a exemplo de ''Amor e Revolução'', personagens femininas se destacam em situações que, até algum tempo atrás, seriam tipicamente masculinas. Um avanço que reproduz o que se vê fora da ficção, onde as desigualdades entre homens e mulheres até existem, mas vêm sendo combatidas com empenho. ''Elegi o feminismo como uma das nossas bandeiras. Não é à toa que citamos tanto Simone de Beauvoir e Betty Friedan na novela'', atesta Tiago Santiago, que escreve ''Amor e Revolução''.
Em ''Fina Estampa'', a intenção de Aguinaldo Silva não é de levantar bandeiras feministas. Na verdade, o autor construiu sua novela com núcleos familiares fortes. E dois deles encabeçados por mulheres que fogem do perfil da maioria das heroínas. Griselda, de Lília Cabral, se esconde atrás de um macacão encardido e sustenta a casa desempenhando trabalhos braçais para fora. E deixa muito homem com medo de sua força. Inclusive Baltazar, de Alexandre Nero, que bate na mulher em casa, mas apanha ''do Pereirão'' por isso. ''É uma personagem sem poesia. Não é que a sexualidade dela tenha se perdido, mas foi deixada de lado'', explica Lília. Na mesma novela, Vilma, vivida por Arlete Salles, ajuda a filha viúva a cuidar da neta e a manter a família trabalhando em um táxi. ''Gosto de dirigir e de velocidade, mas de forma consciente. Por isso, entendo que algumas mulheres venham a exercer essa posição. Mesmo que não seja por escolha. Normalmente, é herança de um pai ou marido'', opina Arlete.
''O Astro'' também tem sua taxista, a doce Lili, de Alinne Moraes. Mas é na pele da investigadora Elizabeth que Úrsula Corona traduz bem esse contraponto da feminilidade com uma valentia quase masculina. ''Por ser um universo ainda pouco comum às mulheres, instiga e seduz. Mesmo com arma na cintura, elas são femininas'', defende a atriz. Em ''Amor e Revolução'', Maria Paixão também mantém sua delicadeza e a feminilidade diante de tiroteios, manifestações e cenas de fuga. ''Esta é uma opção proposital e corresponde ao anseio das mulheres de assumirem seu espaço num mundo que foi dominado por homens através dos últimos milênios'', justifica o autor Tiago Santiago.
Em ''Cordel Encantado'', tanto Açucena quando Doralice, personagens de Bianca Bin e Nathalia Dill, também enfrentaram situações para lá de arriscadas. Sempre para tentar proteger o mocinho Jesuíno, por quem ambas são apaixonadas. Por ele, as duas se vestiram como homens e lutaram ao lado do bando de cangaceiros. E, mesmo se tratando de uma trama de época, é Florinda, de Emanuelle Araújo, quem toca a venda da família. Sem deixar de exercer sua função de dona de casa, cuidando de três filhos. ''A Florinda sempre exerceu certa liderança dentro de casa. Ela foi apresentada desde o início pegando no batente'', valoriza Emanuelle.
Tudo para elas
A preocupação em retratar mulheres mais fortes, autoconfiantes e cheias de atitude tem lá seus motivos. Mas um dos principais ainda é atrair o público feminino para a frente da televisão. Até porque ainda são elas as responsáveis por grande parte da audiência das novelas. E a maioria dos autores, por mais que tente escrever um texto que possa agradar a ambos os sexos, não esconde a preocupação em arrebatar a atenção das telespectadoras. ''Escrevo a novela pensando, primordialmente, nas mulheres. Em suas questões, seus anseios e desejos'', entrega Tiago Santiago.
Depois que passou a investir mais em tramas realistas e deixou de lado suas temáticas de realismo fantástico, Aguinaldo Silva priorizou histórias encabeçadas por mulheres. Tanto como mocinhas quanto no papel das malvadas. Foi assim em ''Senhora do Destino'' e ''Duas Caras'', além dos seriados ''Cinquentinha'' e ''Lara com Z''. ''Adoro trabalhar com elas. Tanto que eu não tenho vilões, são sempre vilãs. Gosto de ver as atrizes no ar'', admite.


