Para mochileiros e esportistas
Não é preciso ser atleta radical para curtir o cenário deslumbrante do pôr-do-sol na morraria da Serra do Sincorá, cartão-postal da Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA). Mas, se a pedida é um trekking diferente, menos conhecido na região, prepare a mochila.
Durante a travessia Lençóis-Vale do Capão, a natureza dá um show e convida você a participar, avançando pelo parque que é cortado pela cadeia de montanhas no sentido norte-sul e esconde chapadões, rios, cachoeiras, poços, piscinas naturais, grutas com lagos de águas límpidas, vales e cânions.
Grande parte dos rios que banham a área da reserva tem coloração acobreada por causa da presença de tanino e outras substâncias provenientes da flora aquática. Apesar de situada no coração do sertão baiano, chove bastante na chapada graças às condições climáticas especiais. Os ventos soprados desde o Oceano Atlântico, depois de atravessarem a planície seca da Bahia, encontram-se com a área de sombra dos paredões, provocando pancadas de chuvas quase diárias.
Assim, a flora apresenta grande variedade, com matas tropicais no sopé dos morros e campos floridos no topo. A biodiversidade explode em vida, na forma de plantas como o gravatá e a sempre-viva, além da bromélia, flor típica do local. Na parte baixa da serra, entre as folhagens da mata, habitam animais como onças, capivaras e quatis, além de muitas espécies de aves.
A região, aliás, bate recordes em monumentos naturais. É o caso da Cachoeira da Fumaça, a segunda mais alta do País, com 340 metros e fluxo pequeno de água, que forma uma cortina de fumaça próxima do solo. Para admirá-la de cima é preciso fazer um desvio de 12 quilômetros, com trechos íngremes na subida inicial.
Vamos à travessia. São cerca de oito horas a pé, tranquilamente. A caminhada entre Lençóis e Capão oferece a chance não só de um contato próximo com o instigante mosaico de ecossistemas, como também com as tradições históricas das lavras diamantinas.
O caminho para o vale escondido começa no fim da Rua Altina Alves, do lado da Pousada dos Lençóis. O contraste é interessante: o calçamento antigo termina e dá lugar a uma estrada de chão que logo se estreita. Daí para frente a inclinação do terreno vai exigir um pouco mais de esforço dos trekkers. Riachos, córregos, cascatas e cachoeiras irão se encarregar do relaxamento tão necessário para a jornada. São hidromassagens naturais à disposição dos andantes e sem custo adicional.
Córrego da Laranjeira, Cachoeirinha, Rio dos Bois, Ribeirão, Riachinho, Grisante. Dar nome aos acidentes geográficos, sem repetir nenhum, não foi tarefa fácil para os primeiros colonos. São miríades de jorros d'água de maior e menor intensidade que se esparramam como duchas nas pedras amareladas das formações de arenito.
A passagem por uma pedreira artesanal, logo no começo do estreito caminho para pedestres, serve bem para ilustrar a importância desse material bruto na vida dos moradores. Dali ainda são retirados blocos e paralelepípedos. Logo após a pedreira a inclinação do terreno aumenta. Ainda nesse trecho é possível avistar o que sobrou de um velho garimpo que fez história: o Estrela do Céu, assim chamado por sua riqueza em diamantes.
Um pouco acima, uma barragem de pedra projetada para distribuir água para os garimpos irrompe na solidão das cactáceas. O caminho continua subindo até o Boqueirão, uma passagem estreita entre as serras. Nesse trecho, a vegetação baixa e aberta ao longo do trajeto cede lugar a árvores altas, samambaias e bromélias de sombra. Passando para o outro lado da serra, surge então o Vale do Rio Ribeirão.
Margeando esses montes avista-se o Morro do Tabor, um castelo de pedra que se destaca no horizonte. Depois de um ziguezague ladeira abaixo, chega-se a um paredão com uma toca rústica embaixo: a Toca das Noivas, palco de um episódio romântico do passado. Segundo contam, um casal de noivos saiu do Vale do Capão para unir-se na igreja de Lençóis. Depois do casamento choveu muito na serra e o Rio Ribeirão encheu. As águas impediram a volta dos enamorados. A lua-de-mel foi improvisada ali mesmo na caverna.
Prosseguindo até o fundo do vale, o caminho cruza o Rio Ribeirão, e segue pela outra margem. Logo aparece a Serra Larga. A vista panorâmica da Serra do Sincorá justifica o sacrifício. A vila do Capão é um colírio para os olhos e situa-se no fim dos campos abertos. O caminho termina nas primeiras casas, onde se junta à estrada carroçável que vem de Palmeiras.





