Para matar as saudades
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domingo, 01 de dezembro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A contar pelos lançamentos da Dubas Música, os amantes da Bossa Nova não precisam mais sentir saudades. A gravadora acaba de lançar em CD um dos discos mais expressivos do gênero, ou da transição que chegava a ele. ''Bossa, balanço e balada'', de Sylvia Telles (ou simplesmente Sylvinha) foi lançado em LP há quase 40 anos pela gravadora Elenco, selo do ex-marido da cantora Aloysio de Oliveira. Para a reedição do disco, a Dubas utilizou as fitas originais do acervo da Elenco, cedidas pela Universal Music.
Depois de ''Bossa, balanço e balada'', lançado em 1963, Sylvia gravou apenas mais dois discos solo pela mesma gravadora, antes de uma morte trágica que interrompeu a sua promissora carreira aos 32 anos. Para o relançamento do disco, a Dubas compilou boa parte das informações sobre sua carreira no encarte, o que dá ao espectador novato a noção de quem foi uma das mais belas vozes da música brasileira. Sylvinha foi uma das primeiras a gravar composições de Antônio Carlos Jobim inaugurando a Bossa Nova quando o termo nem existia oficialmente.
Foi na já distante década de 50, que a cantora começou a dar os seus primeiros passos em direção à carreira. Ela tinha então 19 anos, namorava o músico João Gilberto e tentava um espaço ao sol às escondidas dele. O relacionamento terminou deixando como saldo uma forte influência musical. Cinco anos mais tarde, quando ela já namorava o violinista Candinho pai da sua filha, a também cantora Cláudia Telles começou a se apresentar em pequenos teatros.
Em 1957, gravava o seu primeiro LP, ''Carícia'', com várias músicas inéditas de Tom Jobim. ''Foi a noite'', por exemplo, já tinha sido gravada por ela em 78 rotações, tendo do outro lado ''Menina'', de Carlos Lyra. O acompanhamento é do violão de Candinho. O disco é considerado precursor da Bossa Nova e valeu a ela até um programa de TV, no qual, com o marido, protagonizava histórias ao estilo da série norte-americana I Love Lucy. ''Carícia'' foi gravado pela Odeon, assim como ''Amor de Gente Moça'' (1959) e trouxeram consagração de crítica e público para a cantora. '
Na década de 60, já pela gravadora Elenco e casada com o produtor Aloysio de Oliveira (ex-Bando da Lua, grupo que acompanhava Carmem Miranda nos EUA), Silvinha lançou três discos e dava início a uma carreira internacional interrompida por um acidente fatal de carro, em 1966. ''Bossa, balanço e balada'', é considerado um dos mais importantes registros dessa época. Para relançar o trabalho, a Dubas fez uma cuidadosa masterização. O disco abre com ''Rio'', de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli. Segue com ''Amor em Paz'', de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, onde é possível escutar os soluços da intérprete, assim como sua voz embargada.
O disco traz algumas pérolas, como ''Samba do avião'', de Tom Jobim (''Minha alma canta/vejo o Rio de Janeiro/Estou morrendo de saudade'') interpretada por dezenas de cantores, mas nunca com uma entonação tão peculiar quanto a conferida por Sylvinha. ''Ilusão à toa'' (Johnny Alf); ''Só quis você'' e ''Vagamente'' (ambas de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli); ''Rua deserta'' (Dorival Caymmy e Carlos Guinle); ''Sol da meia-noite'' (versão de Aloysio de Oliveira para a música de Sonny Burke, Lionel Hampton e Johnny Mercer); ''Bossa na Praia'' (Geraldo Cunha e Pery Ribeiro) e ''Dorme'' (Candinho e Ronaldo Bôscoli) integram o registro.
A melhor definição do disco e da intérprete foi feita pelo próprio Aloysio de Oliveira, no lançamento de 1963: ''Quando Sylvinha canta, ela canta triste, canta alegre, canta com bossa e canta com balanço. Como intérprete Sylvinha é uma criança madura. Suas criações podem ter a qualidade de uma expressão sentida ou a juventude de uma alegria comunicativa. Ela às vezes é Sylvia, às vezes é Sylvinha (...) entretanto ela é sempre a mesma, aquela menina que canta para você''.


