PARA LEMBRAR MARLENE DIETRICH
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>De Londrina - Especial para a Folha 2 
''Seu nome começa com uma carícia e termina com uma chicotada''. A frase, do cineasta e poeta francês Jean Cocteau, talvez seja a que melhor defina a personalidade da alemã Maria Magdalene Dietrich von Losch, na tela ou nos bastidores. Atriz e mulher que soube como poucas alimentar o arquétipo da vamp cinematográfica, este sinônimo de ''femme fatale'' é admirável como exemplo da transgressora precoce - anos 30 e 40, principalmente - que impôs sua presença bela e fascinante acima de tudo pelo talento, mas também por um caráter forte, marcado por atitudes e comportamentos ousados e corajosos para seu tempo, como a assumida e amplamente praticada bissexualidade e uma firme negativa antinazista à proposta, quase súplica, feita pessoalmente por Adolf Hitler em 1938, para que voltasse à Alemanha e ajudasse a campanha do III Reich. Para homenagear esta que foi considerada a melhor atriz dramática da época de ouro de Hollywood, o canal por assinatura Telecine Classic vai exibir de hoje até o próximo domingo uma série de filmes determinantes na configuração desse mito emblemático que chega intocável ao novo século.
Filha radiante, natural e escandalosa da República de Weimar - aquela explosão de liberdades e criatividades extremadas ocorridas na Alemanha logo após a Primeira Guerra - , Marlene atuou em 16 filmes durante os anos 20 antes de explodir como mito erótico em 1930 como Lola-Lola, a devoradora cantora de cabaré que arrasta para a ruína o sisudo professor Unrath, sob a direção de seu pigmalião, Joseph von Sternberg, que a dirigiu em nove filmes.
''Foi a mulher mais intrigante que conheci em minha a vida'', confessou o machão John Wayne, um dos parceiros de cena e amante com quem a atriz manteve um caso ruidoso, feliz e transitório, de resto características de suas muitas relações extra-conjugais - foi casada por 56 anos com único homem (o produtor Rudoph Sieber), de quem nunca se divorciou e com quem teve uma única filha. A lista de dezenas de casos, em Hollywood e na Europa, reforçaria nela o estigma de ''devoradora de homens'', com uma novidade pública para a época: o cardápio incluía também mulheres. Mulher forte e determinada, era capaz de atravessar a noite acordada em excessos, e estar pronta e impecável para gravar na manhã seguinte. Profissional absoluta, era amada e respeitada por técnicos e operários dos estúdios (os da Paramount, em especial, onde atuou em 7 filmes), e sabia com ninguém que tipo de iluminação a favorecia. Dominava a tal ponto o ofício de interpretar que até um cineasta como Hitchcock, seco e cruel com os atores, volta e meia interrompia a tomada de um plano de ''Pavor nos Bastidores'' para aceitar sugestões da atriz, não apenas quanto ao texto e marcações de cena, mas até a localização dos refletores.
Quando seu carisma cinematográfico começou a diminuir, ela não teve dúvidas: voltou aos sets passeando seus encantos e cantando com seu tom inconfundível títulos imortais como ''Lili Marlene'', ''La Vie en Rose'' ou ''Falling in Love Again''. Marlene Dietrich morreu em Paris em maio de 92.


