Para lembrar do que o rock é feito
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de julho de 2008
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Hoje comemora-se por todo o globo o Dia Mundial do Rock. Data para reverenciar o melhor ritmo que já saiu de uma guitarra, capaz não somente de entreter e balançar, mas também responsável por mudar o comportamento de uma sociedade, influenciar atitudes de gerações, tornar-se a linha de frente do jovem no combate à pobreza de espírito e à comodidade.
Em tempos de hits descartáveis no mundo hype das ''melhores bandas do mundo da semana'' e de movimentos que exploram muito mais o visual do que a própria música e sua expressão, o projeto da ''Grande Garagem que Grava'' (ou GGG), de Curitiba, relembra bem uma mensagem simples, porém uma das mais importantes do rock: a revolução, seja social ou cultural, começa com a atitude de cada um.
A GGG nasceu no final de 2003, quando os músicos Luiz Ferreira e Rodrigo Barros - experientes na cena roqueira com a banda Beijo AA Força em mais de 20 anos de estrada e agora integrantes do grupo Maxixe Machine - decidiram seguir suas influências em prol da música local.
''A gente se inspirou muito em Pixies e no Tony Wilson, da Factory, da cena de Manchester (que virou até filme em ''24 Hour Party People - A Festa Nunca Acaba''). O Pixies por causa da gravação instantânea que eles faziam depois dos shows e o Tony por causa daquela liberdade de ação, dos contratos inexistentes com os artistas. Eles foram os catalisadores dessa idéia'', conta Ferreira, 44 anos, músico profissional desde 1982.
A GGG abriu as portas em uma casa no bairro Rebouças, depois de conseguir o espaço via programa da Fundação Cultural de Curitiba (FCC). ''A gente começou com um projeto menor, gravando demos de bandas'', lembra Ferreira. A cada show, o público podia curtir a performance de uma banda local e, em seguida, já curtir o registro em CD.
Inicialmente foram gravadas 16 bandas e, de lá pra cá, Ferreira conseguiu manter o projeto nos anos em que o mesmo não foi contemplado em editais de Lei de Incentivo à Cultura. Nesta edição, o modelo mudou um pouco, com a chegada de novos aparelhos que permitiram aperfeiçoamento das gravações, em 16 canais.
''Cada ano a gente dá uma roupagem nova. Desta vez nós gravamos 13 bandas, com tiragem de 200 cópias para as bandas, sem cobrar nada deles. A gente fez uma tiragem pequena porque sabemos que para um artista independente é difícil vender mil cópias. O importante é a divulgação, enquanto existir energia elétrica esse material vai ficar na internet. É cartão de visitas para as bandas, queremos fazer um retrato do momento do rock curitibano'', comenta Ferreira, que comemora um total de 30 discos gravados pela Homem de Ferro, produtora da GGG.
Alguns kits com os 13 discos gravados nesta edição foram distribuídos gratuitamente, ''somente para colecionadores'', diz Ferreira. A idéia é mesmo divulgar. ''A repercussão está ótima, os grupos conseguiram shows.'' As bandas já estão com agenda para lançamento do box deste mês até outubro (programação em anexo).
Além do registro, o projeto também serve como modelo de ação independente e uma visão diferente da relação entre grupos e gravadoras. ''A gente não agiu como uma gravadora que prende o artista depois. A gente produz o trabalho e as próprias bandas podem refazer a tiragem e negociar como quiserem o material'', nota o músico.
Além disso a GGG serve para resumir o que significa a atitude rock, especialmente na data de hoje. ''Isso é bom para mostrar que ninguém precisa ficar esperando uma grande gravadora vir pegar na sua mão para ir gravar suas coisas. É um legado do punk, daquela coisa ''Do It Yourself'' (''Faça Você Mesmo''). Quem espera não alcança, só quem corre atrás consegue'', destaca Ferreira.


