Uma cirrose hepática pôs fim à vida de Ari Barroso num domingo de carnaval, em 1964, no momento em que a sua escola de samba preferida, Império Serrano, desfilava na avenida Presidente Vargas. Se estivesse vivo, hoje o compositor sopraria velinhas. Estaria completando 98 anos.
A Rádio Educativa FM 97.1, de Curitiba, incluirá os grandes sucessos do artista em sua programação normal, durante todo o dia, mas às 22 horas colocará no ar um especial que faz parte de seu acervo. Música e passagens da vida de Ari formam o programa.
Nascido na cidadezinha de Ubá, Minas Gerais, foi registrado como Ari Evangelista Barroso. Porém, no início da carreira artística se desfez do nome que não gostava: ''Esse Evangelista nunca deu certo''. Órfão de pai aos 8 anos, foi criado pela tia-avó Ritinha, que o introduziu na música ensinando-lhe piano. A severa mulher fazia com que estudasse três horas diárias. Tinha que percorrer a escala musical com um pires na costa da mão. Se o pires caísse, apanhava com vara de marmelo. Dos 10 aos 12 anos foi esse tormento, apesar de a tia visualizar um futuro religioso para o sobrinho. Queria-o padre.
Ao ganhar 40 contos de réis de herança deixada por um tio, aos 17 anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro. Queria ser advogado. Nem religião, nem advocacia vingaram. Com a marchinha ''Dá Nela'' faturou o primeiro lugar no concurso de músicas carnavalescas de 1930, embolsou cinco contos de réis e casou-se com Ivone Arantes. Estava surgindo o compositor.
Numa tarde chuvosa estava Ari pensativo em sua casa, quando de repente levantou-se e foi ao piano. ''Vou fazer um samba cheio de inovações'', disse. Meia-hora depois estava pronto o tal samba que seria gravado por Francisco Alves e se tornaria no grande sucesso daquele ano de 1939: ''Aquarela do Brasil''.
Espécie de um segundo hino nacional, este é apenas um dos muitos títulos musicais que continuam sendo cantados e gravados pelos mais variados intérpretes. ''No Rancho Fundo'', ''Folhas Mortas'', ''Risque'', ''Na Baixa do Sapateiro'' são alguns dos clássicos do compositor flamenguista roxo. Como locutor esportivo, saudava os gols do seu time tocando gaita-de-boca, mas quando a bola vinha ameaçadora e ele pressentia o gol contra o rubro-negro, virava-se de costas: ''Não vou olhar, não vou olhar''.


Especial Ari Barroso. Hoje, às 22 horas, na Rádio Educativa FM 97.1, em Curitiba. Programa em homenagem aos 98 anos de nascimento do compositor.

mockup