Diante de filmes como ''Conversa Noturna'', que o francês George Gachot (Maria Bethania, Musica é Perfume) realizou em 2002 sobre a pianista argentina Martha Argerich, cabe colocar uma questão abrangente a respeito do sub-gênero ''documentário sobre artistas''. O que se recompensa, ou se celebra, ou se critica ao ver um filme como este ? O talento da artista, do diretor no momento de criar sua obra, a clareza, o didatismo, a utilização da iconografia ou a entrevista em si ?
A pergunta terá várias e diferentes respostas, claro, mas apenas uma parece impor-se claramente à medida que o filme avança. E não é nenhuma das citadas. É preciso falar, neste sentido, de um conceito de verdade cinematográfica, de transparência, quase de pureza de materiais. Gachot deixa que sejam o rosto e as mãos de Argerich a contar a história. Nada além. Não há aqui uma biografia mais ampla e rebuscada além daquela que está contida nestes pedaços de Martha, nestes dedos que percorreram cenários em meio século de carreira - as primeiras imagens a que se assiste datam de 1957.
Em palavras - seu francês é infinitamente mais sugestivo, verossímil e coquete do que seu inglês - e gestos assim quase soltos, que combinam um toque de sedução com ironia e permitem um olhar no passado sem cair na melancolia, Argerich e Gachot fazem um filme que flui no tempo presente, no qual uma interpretação de 1979, outra de 1967 e um ensaio registrado em 2001 convivem em harmonia.
Não há melhor narrativa documental do que aquela que evita a cinebiografia ilustrada, aquela quase sempre rançosa, ''nascida, crescida, estudada, premiada, etc''. Neste sentido, ''Conversa Noturna'' é exemplar. É possível adivinhar quase tudo de Argerich sem que ninguém afirme nada. Não há parentes, críticos, consultores, informantes, depoentes, confidentes, calendários rígidos. Em três horas gravadas numa entrevista na Alemanha, tudo está dito por ela mesma em sua narrativa infantil sobre a relação com Paganini e com o quarto concerto de Beethoven; em sua quase brejeirice quando confessa a primeira vez que cancelou um concerto (''só para sentir como era'') ou sua performance na Partita em Dó Menor de Bach.
Argerich abre o jogo na hora de combinar interpretação e biografia. Ela comenta sua relação muito íntima com os compositores, quase casos de amor. Por exemplo, como sente que Schumann é ''fácil'', e como dois autores podem se ''indispor'' entre si com ''ciúmes'', se ela resolve interpretar um logo depois do outro.
Que os dedos de Argerich sejam prodigiosos, que sua sensibilidade nos envolva logo de saída ou que os fragmentos escolhidos sejam ou não os melhores, tudo isto é secundário. Aqui a verdade se mostra por inteiro porque a pessoa Martha que surge da entrevista reaparece frente ao piano. E volta a conversar. E não há maneira de compreender uma sem a outra.
Em Londrina não existe o DVD para locação. Resta a opção de compra, e pode ser encomendado na Livrarias Porto, Shopping Catuaí, ou diretamente no site www.biscoitofino.com.br. O preço é R$ 42,90, e além do filme há 38 minutos de extras. Neste caso, extraordinários.

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