Para gostar, é melhor não pensar muito
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de março de 2000
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 30 (AE) - Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo. Aliás, de qualquer janela de "Bossa Nova" se vê o Corcovado. Ou o Pão de Açúcar, ou qualquer outro cartão-postal desse Rio imaginário criado por Bruno Barreto. O filme tem dois invólucros óbvios. Um, o visual publicitário destinado a vender uma cidade maravilhosa. Outro, a música, a também maravilhosa música de Tom Jobim, levemente edulcorada em alguns arranjos de Elmir Deodato. O recheio é uma história de amor que, em princípio, deveria ter como referência a novela "Senhorita Simpson", de Sérgio SantAnna.
Por razões que só a cultura do desperdício pode explicar
Bruno Barreto e seus roteiristas ignoraram o original de SantAnna. Preservaram apenas o esqueleto da trama e tudo o mais foi mudado. "Bossa Nova fala de um grupo de adultos que estuda inglês com uma professora americana moradora no Rio. Um deles (Antônio Fagundes), advogado que está se descasando, se apaixona pela mestra (Amy Irving, mulher de Barreto). Boa parte do filme é falada em inglês, o que se justifica pela situação. Os standards da bossa também têm letras em inglês, bom pavimento para os caminhos de distribuição no exterior. Enfim, filme para gringo.
Nada contra comédias românticas. Aliás, o cinema brasileiro dos anos 90 já tem seus filhotes no gênero, como "Pequeno Dicionário Amoroso, de Sandra Werneck, e Amores, de Domingos Oliveira. Duas maneiras, dois pontos de vista, dois estilos de compreensão do envolvimento amoroso moderno.
"Bossa Nova joga em outro time. Não traz nenhuma novidade no tratamento dessa história tão antiga quanto o Gênesis. Na verdade, as peripécias amorosas dos personagens parecem apenas servir de pretexto para o que de fato interessa, as bonitas imagens, a bela música. O conteúdo é quase inexistente e nem por isso se pode dizer que seja neutro. Porque ralo como sopinha de hospital, mesmo assim consegue veicular um número impressionante de clichês sobre o País em geral, e o Rio, em particular. O filme é simpático, mas se quiser gostar, é melhor não pensar muito nele.


