Primeiro, música boa era a erudita. A popular não merecia entrar nos grandes teatros e salas de concerto. Mas, conforme essa música ''popular'' foi desenvolvendo-se, o status foi mudando: jazz, blues, bossa-nova, MPB, rock e outros gradativamente passaram a ser reconhecidos como música de qualidade. E, embora ainda haja quem torça o nariz, não dá para dizer que os ritmos mais presentes na mídia, como o pagode e o sertanejo, não tenham qualidade.
A verdade é que ficou impossível ensinar alguém a gostar de boa música. Isso porque acredita-se que a definição do que significa boa música é bastante pessoal e subjetiva. Embora possam ser definidos parâmetros para tal classificação, os próprios parâmetros são relativos e dependentes de fatores socioculturais.
''Geralmente, a gente gosta de determinada música por sentir nela alguma motivação, ou sintonia de emoção e vibração, ou compreensão da estrutura, ou por associar a algo ligado ao cotidiano. São aspectos emocionais e cognitivos'', explica o professor Mário Loureiro, do departamento de Música da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Mas é possível ensinar alguém a apreciar a música, expandindo a audição, prestando atenção em outros elementos que não apenas a melodia e o ritmo. Se o som é agradável, que tal observar se a letra traz belos versos, ideias diferentes, desperta algum sentimento? E o que é cantado, será que combina com o som e a forma como é executado? E a voz, como é? Vem firme, certeira, como se nem fosse possível outro jeito de cantar que não aquele? Os instrumentos combinam? Dialogam entre si?
''A ideia é concentrar-se para deixar de ouvir aquilo que chama mais a atenção, como a voz, e prestar atenção nas nuances da melodia, ou na relação entre as notas, no som de cada nota, a densidade, vibração, o espaço que há entre os sons'', ensina Loureiro.
Para o professor, ampliar a escuta é mais simples do que parece. ''Não é preciso aprender a linguagem musical. Tem que esconder o foco proeminente para enxergar o outro'', explica o professor, comparando esta ação à observação daquelas figuras ambíguas em que é possível enxergar dois desenhos distintos em um só.
Além de desprendimento e empenho, o professor ressalta que é fundamental não ter preconceito para se conseguir realmente liberar os ouvidos para a música. E, embora seja melhor que a pessoa tenha contato com a música desde criança, isso não impede que se aprenda a apreciar a música mesmo depois de certa idade. ''A idade pode envelhecer o corpo, mas não tira a sensibilidade'', observa Loureiro.
Não ter preconceito também é o fator fundamental apontado pela maestrina da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (Osuel), Elena Herrera. ''E o maior centro de preconceito são as cidades maiores. Levei a Orquestra para Medianeira e tocamos música espanhola do século XIX. Cinco mil pessoas assitiram. Povo simples, que nunca escutou uma orquestra sinfônica'', relata.
Para ela, a apreciação musical não depende da formação acadêmica, mas vem de berço. Literalmente, muitas vezes. ''Minha mãe sempre cantou no berço. A canção de ninar é a primeira manifestação de criação de sensibilidade no ouvido do bebê. Se a mãe não canta não pode pretender que o filho goste de música'', observa.
A maestrina conta que cresceu ouvindo Brahms e Beatles com o mesmo apreço, e afirma não haver diferença entre erudito e popular. ''É mais uma coisa histórica. Beatles é erudito. Paul McCartney já compôs sobre padrões da maior erudição'', exemplifica.
E, para aprender a apreciar tanto um quanto o outro, a receita de Elena é simples: ''Você não precisa ser apaixonado por música. Só estar aberto para prestar atenção, para ouvir coisas diferentes e deixar a música circular no seu sangue junto com o oxigênio. Uma hora, isso chega ao coração.''

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