Para fazer cinema, ele comeu o pão que o diabo amassou
Para fazer cinema, ele comeu
o pão que o diabo amassou
José Mojica Marins é um dos únicos cineastas conhecidos que ainda pode ostentar o título de gênio incompreendido do cinema nacional. Os outros, ou já foram compreendidos ou não foram gênios. Admirado por Glauber Rocha, que não se cansava de elogiar o seu profundo domínio intuitivo da linguagem cinematográfica, Mojica já comeu o pão que o diabo (ou Zé do Caixão) amassou para continuar fazendo cinema. Ele nunca recebeu um único tostão de verbas oficiais para rodar seus filmes, ou fitas - como gosta de chamar.
Mojica se lembra que quando fazia Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver, filme que se transformou em um de seus grandes sucessos de bilheteria nos anos 60, teve que vender tudo o que tinha. Mandei minha mulher e os filhos para a casa da minha sogra e fiquei só com duas calças rancheiras e três camisas. Mais nada, conta. Mas, depois de prontos, seus filmes lotavam os cinemas no Brasil inteiro. Os gibis lançados por ele com as histórias do Zé do Caixão vendiam mais de 200 mil exemplares, um sucesso editorial inigualável na época.
Nos anos 70, perseguido obsessivamente pela censura do regime militar, foi quase esquecido. As matrizes de seu filme O Despertar da Besta ficaram apreendidas por mais de 17 anos. Quando a ditadura acabou, viveu um longo período de ostracismo. Mas mesmo assim continuei fazendo cinema, afirma. Sua produção é invejável: 165 filmes, sem contar produções para televisão e programas de rádio.
Nos anos 90, quando imaginava que viveria o resto de seus dias no ostracismo, a onda de cinema trash o resgatou. Nos Estados Unidos, ele se transformou em sucesso de bilheteria. Foi elogiado até por Steven Spielberg, que afirmou: Se ele tivesse nascido na América do Norte, com certeza seria reconhecido hoje como um dos grandes gênios do cinema mundial. O criador do lendário Fred Krueger admitiu que inspirou-se em Zé do Caixão para criar alguns traços de seu monstro. Mojica está negociando com duas grandes distribuidoras
norte-americanas que farão a distribuição mundial de seus filmes a partir do próximo ano. Aí, finalmente, vamos ter fitas minhas em locadoras brasileiras, ironiza. (P.S.M.)





