Entre os leitores da obra de Araújo não escapam garotas papo firme e playboys, que há muito não exibem mais o topete, mas que se lembram com saudade daquelas jovens tardes de domingo, que marcaram a Jovem Guarda e o início da carreira de Roberto Carlos, considerada a sua melhor fase.
No meio dessa multidão, que olha para as livrarias e vê o ídolo em todos os detalhes, o tabelião do Cartório de Notas e Protesto de Títulos da Comarca de Bela Vista do Paraíso, Abner de Lima Bittencourt Ferreira, é mais do que um simples leitor da biografia repudiada pelo Rei.
''Escrevi uma carta ao Paulo César Araújo corrigindo uma imprecisão. Ele me respondeu, dizendo que se houver uma segunda edição da obra faria as alterações devidas'', conta Ferreira, revelando que a música ''Jesus Cristo'' somente foi composta com sua intercessão e que gostaria, que essa versão também fizesse parte da biografia do Rei.
Sempre que lembra essa história, Ferreira volta a 1970, quando tinha 20 anos de idade e era estudante de Direito em Marília (SP), trabalhando como repórter musical na Rádio Clube.
Naquele ano, o Rei faria um show na cidade vizinha de Bauru e Ferreira, com um gravador a tiracolo, partiu para a missão de entrevistá-lo, juntamente com o radialista Gabriel dos Santos. ''Roberto Carlos estava sentado em uma cadeira, cabisbaixo e apresentava um semblante de profunda tristeza. Aí nos aproximamos, ele se compôs, olhou para o Gabriel e disse: 'Oi, bicho. Como é que você está'.
O Gabriel respondeu que estava bem e que trabalhava numa rádio da cidade de Marília e que queria gravar uma entrevista se ele permitisse. Foi quando Roberto olhando para o gravador que eu segurava disse: 'Pode ligar a máquina e pergunte o que quiser''', lembra Santos, o encontro com o Rei.
Na carta que enviou ao autor da biografia, Ferreira conta que no final da entrevista o ídolo deu uma fita cassete para a dupla de repórteres.
''Isto aqui é uma música que compus, recentemente, cujo disco não foi prensado e gostaria que vocês lançassem em primeira mão no seu programa'', disse um Roberto, diante do espanto da dupla, que ao chegar no estúdio ouviu a música ''120, 150, 200 Km por Hora''.
Ferreira lembra a observação que Santos fez sobre o ídolo:
''Se o Roberto Carlos continuar nesse embalo vai acabar se arrebentando em algum acidente de carro, aí novamente lembrei daquela cena de profunda tristeza e passei a rezar por ele todos os dias. Quando me entregaram o novo LP de Roberto Carlos, comecei a ler os títulos das músicas. '120, 150, 200 Km por Hora' estava no LP e eu já conhecia. Fui percorrendo os demais títulos: 'Ana', 'Meu Pequeno Cachoeiro' e 'Jesus Cristo'. Dias depois, a música tinha estourado e fiquei sabendo que numa entrevista para televisão, Roberto Carlos falou que fez a música, o refrão e os dois primeiros versos em Cascavel, Oeste do Paraná, e o último quando chegou em São Paulo. Diante disso tudo, acho improvável que a música tenha sido iniciada no ano de 1969, como afirma o autor da biografia. Hoje, assim como no passado, sempre acreditei que a música 'Jesus Cristo' foi composta em resposta das minhas orações e que Roberto Carlos tinha saído da zona de perigo e que a música não teve as mãos de Erasmo Carlos''.(F.L.)

mockup