Para entender os sonhos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de dezembro de 1997
Silvana Leão Londrina 
ReproduçãoMulher abraçando o travesseiro, tela de Gil Vicente/1987Há muito os sonhos são objeto de curiosidade por parte da humanidade. Envoltos em mistérios, eles só começaram a ser desvendados na sua fisiologia a partir da década de 50, como parte do ciclo do sono determinado biologicamente. Mas apesar das constantes descobertas no campo desta importante expressão do inconsciente, eles continuam sendo, até hoje, alvo de interpretações errôneas e simplistas, motivadas muitas vezes por simbolismos pré-concebidos.
Quem nunca ouviu falar - e até acreditou - que sonhar com a morte de determinada pessoa é sinal de saúde para ela? Ou que aquele sonho com um amigo pode ser o sinal de que vai dar cachorro no jogo-do-bicho? O processo, porém, não é tão simples assim. Psicólogos e estudiosos do assunto explicam que ainda não existem certezas em relação à função dos sonhos, e que para entendê-los é preciso, antes de mais nada, conhecer o momento vivido pela pessoa.
Para a psicobióloga Silvia Helena Cardoso, professora da Universidade de Campinas (Unicamp) e editora-chefe da revista Cerébro & Mente, os sonhos emocionais, por exemplo, podem refletir a personalidade do sonhador e até a sua situação, no estado de alerta. Eles podem expressar preocupações, desejos, insegurança, idéias grandiosas, ciúmes, amor, medos e outros sentimentos ou sensações, revelando assim diferentes aspectos do estado mental das pessoas, explica Silvia Cardoso.
ReproduçãoMenina dormindo, tela de Gil Vicente/1984
Recurso de análiseOs sonhos possuem uma característica única, que os torna ainda mais misteriosos. Através deles, a análise dos fenômenos do dia-a-dia é falha, a memória traz confusamente o passado ao presente, o sonhador reconhece uma pessoa falecida, mas aceita a sua presença sem surpresas. Alguns estudiosos dão a seguinte explicação: durante o sonho, o córtex, que analisa com precisão os vários impulsos que temos em estado de vígilia, tem seu desempenho comprometido, nos levando a cometer imaginariamente atos anti-sociais enquanto dormimos. Felizmente os impulsos do córtex adormecido morrem a caminho dos órgãos afetores e nada de mal acontece.
Para a psicóloga e psicoterapeuta Isabel Xavier, de Campo Grande (MS), os sonhos são um importante recurso da análise, na medida em que permitem entrar em contato com os conteúdos inconscientes do paciente. Estes conteúdos, segundo a psicóloga, afetam a vida de todos diariamente. É através dos sonhos que se pode descobrir quais são as sombras e os complexos de uma pessoa, suas dificuldades em relação a alguns aspectos da vida. Eles são totalmente reveladores, se soubermos entendê-los.
Em contrapartida, Isabel afirma que quanto mais a pessoa se conhece, mais facilidade terá para saber o que o sonho está querendo dizer. Os sonhos são um produto natural da psiquê, é a nossa atividade noturna. Eles refletem tudo o que já vivemos e o que estamos vivendo. A psicoterapeuta lembra que sonhar é uma atividade constante, embora muitas vezes, ao acordar, não lembremos do que sonhamos durante a noite. O fato de não lembrarmos é uma defesa do nosso cérebro, por se tratar de um conteúdo difícil ou doloroso para nós.
Adepta da linha proposta pelo psiquiatra suíço Carl Jung, Isabel Xavier acredita que os sonhos mostram não apenas os desejos reprimidos (principal linha de pensamento de Sigmund Freud, outro grande estudioso do tema), mas tudo o que a pessoa está passando naquele momento. Por isso nem sempre os conteúdos presentes nesta manifestação do inconsciente tratam de um problema. Muitas vezes podem ser simplesmente uma revelação, seja ela boa ou ruim.
>Compreender e não analisarNo campo da religião, a interpretação dos sonhos sempre foi uma prática reveladora dos desígnios do divino, dos aspectos transcendentes desta vida. De uma maneira simplificada, os sonhos são nosso inconsciente falando através de linguagem simbólica. Quando bem entendidos, os dados revelados por eles podem nos ajudar a tomar decisões relativas a partes de nossa vida que tenham sido esquecidas ou mascaradas.
Sem esta exteriorização da nossa memória psíquica, os especialistas afirmam que ficaríamos loucos. Trata-se de uma necessidade biológica: durante todo o dia o cérebro armazena uma série de informações, e os sonhos seriam uma forma de realimentar a mente. Jung os definiu como a expressão noturna da alma. Mas o psiquiatra também deixou claro que eles não foram inventados com o propósito de ser analisados. O que devemos, na opinião de Jung, é nos esforçar para compreendê-los e tirar deles algum proveito em nosso benefício.
Segundo a psicóloga Rita Maria T. Diniz, docente da Sociedade Brasileira de Análise Junguiana, entre estes benefícios estão o autoconhecimento, a antecipação de conflitos, a prevenção de desequilíbrios mais graves, a descoberta de potenciais nunca imaginados, a conscientização da ampla complexidade do psiquismo e a correção de ilusões defensivas, entre outros. É salutar estarmos em contato com os nossos sonhos de uma forma mais envolvida e espontânea possível, deixando-nos influenciar por eles, antes mesmo de preocuparmo-nos com a sua interpretação, diz Rita Diniz.
A psicóloga afirma que para a linguagem dos sonhos, não existem dicionários nem uma decodificação padronizada. Sonho é um produto individual e tem que ser trabalhado dentro de um contexto. Os símbolos, embora possuam raízes universais, pedem uma interpretação individualizada. Para a psicóloga, o sonho não engana ou dissimula: os recursos da consciência é que são limitados para sua compreensão.
Dormir antes de decidirDiferente de Jung, Freud concebeu os sonhos - até mesmo aqueles de pavor e de perseguições - basicamente como a satisfação de um desejo. Embora muitos não concordem com seus conceitos, há que se admitir que algumas de suas teorias foram e continuam válidas. Um exemplo é a necessidade de dormir-se pelo menos uma noite antes de tomar alguma decisão sobre um problema particularmente difícil.
A razão pode ser facilmente compreendida: nesse ínterim teremos condição de recorrer à memória integral, consultar o arquivo geral para resolver a questão após a manipulação de um conjunto muito mais amplo de dados. O recurso, muito utilizado por Scarlet OHara, personagem do filme ...E o vento levou, empresta à solução uma segurança muito maior e, consequentemente, maiores chances de êxito.
Freud também defendeu a idéia de que o sonho é sempre significativo, ainda que não consigamos, de imediato, saber com precisão o que ele quer dizer. De qualquer forma, parece inquestionável a teoria de que o sonho protege o sono. Nunca nos permitimos - escreveu ele - ser pertubados em nosso sono por assuntos irrelevantes.


