A londrinense Cristina Mello, radicada há 20 anos em Portugal, lançou, no último dia 12, em São Paulo, o livro ‘‘O Ensino da Literatura e a Problemática dos Gêneros Literários’’, baseado em sua tese de doutorado em Literatura Portuguesa, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. O lançamento no Brasil foi realizado através do Centro de Estudos Portugueses da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, com apoio da Livraria Portugal.
O livro, segundo Cristina, embora totalmente pesquisado junto ao ensino regular português, pode ajudar professores brasileiros no ensino de literatura no segundo grau. ‘‘Meu estudo é sobre as imagens que os alunos retêm das obras. E a conclusão a que cheguei, depois de analisar 160 provas aplicadas com alunos e outras cinco mil páginas de documentos - entre eles, cadernos e redações - foi de que a leitura das obras recomendadas não é feita. Tudo se baseia num resumo de apostila, muito mal amalgamado’’ - explica.
A obra foi dividida em três partes: a primeira traz o estudo dos gêneros de literatura, começando com Aristóteles e Platão, porém sempre articulando com os gêneros aplicados nos livros didáticos. A segunda é baseada na configuração e recepção dos gêneros, com a pesquisa aplicada em quatro escolas portuguesas. A terceira é, talvez, a mais inovadora no ensino da Literatura.
É onde Cristina apresenta propostas que vêm efetivamente contribuir para resolver o problema da não-leitura. ‘‘Parto da leitura prévia para concretizarmos estratégias práticas. Ou seja, sugiro a criação de roteiros tipo cinematográficos para acompanhar a leitura de um livro de 716 páginas, por exemplo, trabalhando a interatividade dentro da sala de aula’’ - diz. Para desenvolver sua proposta, Cristina utilizou três gêneros de literatura a partir das obras ‘‘Frei Luiz de Souza’’, drama de Almeida Garret; ‘‘Os Maias’’, romance de Eça de Queiroz; e ‘‘Orfeu Rebelde’’, poesia de Miguel Torga.
Segundo ela, a proposta é baseada no construtivismo - que propõe a construção da leitura - mas não tira a responsabilidade do professor de ‘‘dar a aula’’. ‘‘O construtivismo tradicional deixa praticamente tudo por conta do aluno e eu não concordo com esta postura. A minha proposta dá trabalho ao professor? Dá, mas acho que vale a pena o investimento’’ - sustenta.
A pesquisa e o consequente desenvolvimento do trabalho levou cerca de sete anos para ser concluído. Neste meio tempo, Cristina passou algum tempo em universidades européias discutindo a questão da não-leitura. ‘‘E vi que este problema não é só português ou brasileiro. É um fenômeno generalizado. O público leitor está restrito aos círculos intelectuais’’ - afirma.
Cristina, formada pela Faculdade de Letras da Universidade Estudal do Rio de Janeiro, foi para Portugal em 1978, com uma bolsa da Fundação Gulbankina, para estudar a obra de Miguel Torga. Casou-se com o também escritor português Pires Laranjeira, tem um filha de 17 anos, e leciona na Universidade de Coimbra. Todos os anos volta ao Brasil para visitar a família, que reside em Cornélio Procópio, e para ministrar cursos e palestras sobre Literatura Portuguesa. Seu livro pode ser encontrado na Ebradil/Livraria Portugal (Rua Genebra, 165, Cep 01316-010, São Paulo, telefax 011-3104.1748/232.2071), e-mail: [email protected]

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