Para Eliot, ele era il miglior fabbro
Avril Bradley/Jorge Zahar Editor/ReproduçãoA obra poética e a crítica literária de Ezra Pound (1885-1972) foram significativamente marcadas por seus estudos da língua e da literatura chinesa. A leitura de The Chinese Written Character as Mediun for Poetry, de Ernest Fenollosa, foi o estopim. A partir da escrita ideogramática, Pound fundamentou uma teoria, por assim dizer, que não foi levada muito a sério pelos críticos conservadores, mas atraiu vários autores formalistas. No Brasil, Pound virou figura totêmica da chamada poesia concreta.
Há quem diga que a importância do poeta e crítico norte-americano é maior pela influência direta que teve sobre alguns dos grandes autores contemporâneos, do que propriamente pela sua obra. Mas, para T.S. Eliot - um desses autores -, Pound era il miglior fabbro, título semelhante ao que Dante concedeu a Guido Cavalcanti.
Os estudos críticos de Pound, dispersos e ocasionais como tenham sido, formam o corpo de crítica menos dispensável do nosso tempo, escreveu Eliot - citado por Augusto de Campos no texto de apresentação da edição brasileira de ABC of Reading (ABC da Literatura, Ed. Cultrix, tradução de Augusto de Campos e José Paulo Paes). Este livro é uma recomendável porta de entrada à fábrica de idéias de Ezra Pound.
A verdade é que, tanto na poesia como na prosa, Pound encontrou um jeito de dizer. Um de seus lemas sempre foi make it new (torne isto novo, renove). Nos versos, que refletem domínio de vários temas e ritmos, ele introduz cortes quase cinematográficos, ousa no espaçamento tipográfico, joga com o peso e a leveza da língua. Nos textos em prosa, não raro despreza o discurso lógico-linear, colocando as idéias de maneira aparentemente fragmentadas até se formar o mosaico que permite a compreeensão do todo. Obviamente, hoje em dia, habituados que estamos à linguagem dos videoclipes, Pound não causa tanta estranheza.
A antevisão é uma das características dos grandes criadores. Tornou-se até certo ponto popular a frase do próprio Ezra Pound os artistas são as antenas da raça (que aparece também na versão os poetas são...). Para Marshall McLuhan, Pound é o único escritor do nosso tempo cuja obra obtém o efeito da conversa real, tal como ela ocorre entre aqueles que vivem num intenso foco de interesses complexos.
Ezra Pound se dedicou também ao estabelecimento de um paideuma (ordenação do conhecimento de modo que o próximo homem - ou geração - possa encontrar o essencial sem desperdício de tempo). Claro, há um grau de subjetividade em qualquer seleção, por mais técnica e rigorosa. Mas nada impede que se parta do básico para descobertas pessoais. Pound também dividiu a poesia em três modalidades (melopéia, fanopéia e logopéia) e classificou os escritores nas seguintes categorias: inventores, mestres, diluidores, bons escritores, beletristas e lançadores de modas. (N.C.)





