Pelo alto custo, o heliski é um esporte de elite, mas o backcountry não precisa ser. Para não gastar centenas de dólares com helicóptero, o jeito é buscar o powder a pé, carregando a prancha de snowboard na mão ou, no caso dos esquiadores, com esquis especiais os randonné ou telemark que deixam o calcanhar solto para o atleta subir a montanha caminhando. Uma fita chamada pele de foca (hoje não é mais feita com os animais), colada na parte de baixo dos esquis, faz com que eles deslizem somente para frente, permitindo a subida.
Enquanto morava em Winter Park, no Colorado, nos Estados Unidos, o estudante de relações internacionais Daniel Barbarini, de 28 anos, participou de quase 20 expedições ao backcountry com os amigos. ''Éramos um grupo de malucos. Subíamos uma montanha chamada Byers Peak (de 3.903 metros), perto de onde morávamos, e descíamos esquiando. Mas dava muito trabalho'', relata. Para chegar até o topo, o grupo esquiava por quatro horas até a base da montanha, a cerca de 3 mil metros de altura. Depois, gastava outras quatro para subi-la. Tudo para 30 minutos de descida em powder.
Barbarini também participou de longas excursões para esquiar no backcountry. A maior, no parque de Grand Teton Valley, em Idaho, durou dez dias. ''Grande parte do tempo era passada em terreno reto, subidas e acampando. A gente faz de tudo para esquiar em neve virgem.''
O estudante já experimentou o heliski nos Estados Unidos e no Canadá, mas prefere chegar à neve fofa a pé, mesmo gastando muito mais tempo. ''Fazer heliski é impressionante e confortável, mas é comparável a subir o Everest de helicóptero. Onde está o desafio?'', indaga.
O campeão brasileiro de snowboard Felipe Motta, de 29 anos, é um pouco menos radical. Ele já foi praticar backcountry a pé 30 vezes, mas não hesitaria em trocar a prática pelo heliboard, que experimentou quatro vezes em Valle Nevado. ''Meu hobby é o snowboard e não escalar montanha. Por isso, prefiro o helicóptero. Dá para descer mais vezes.''
Por enquanto, porém, ele ainda precisa enfrentar longas caminhadas na neve para praticar o esporte fora da pista. ''O heliboard é muito caro'', lamenta. Para que tanto esforço, então? ''Quando você surfa na neve virgem, é como andar numa estrada sem buracos, ela é macia e lisa. Com velocidade, você flutua em cima dela'', descreve.
Sua colega do feminino, Isabel Clark Ribeiro, até perdeu a conta das vezes em que fugiu das estações de esqui para surfar na neve intocada. ''Foram quase 50'', diz. De acordo com ela, o maior atrativo do esporte, além da proximidade com a natureza, é enfrentar o desconhecido. ''Uma pista pode ter saltos e obstáculos maiores, mas no backcountry o barato é a improvisação. Você está sempre se surpreendendo, é como se fosse uma dança'', empolga-se.
Andar no meio das árvores, ou tree skiing e tree boarding, é uma das modalidades que ela mais aprecia. ''É muito legal, só não dá para ir muito rápido, para não dar de cara com uma árvore'', alerta. Outras formas de backcountry incluem o glacial (no gelo), geralmente praticado em lugares de neve eterna, durante o verão, e o bowl, em áreas abertas, sem vegetação.
Além dos helicópteros, uma opção para quem não quer se cansar na busca do powder são os snowcats, tratores que levam esquiadores a lugares de difícil acesso. A prática, porém, não é nada econômica. Uma excursão em Aspen custa cerca de US$ 290 por pessoa. (S.C.)

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