Rubens Pileggi Sá
De Londrina
Especial para a Folha2
Afinal, o que vem a ser a arte brasileira? Será que temos parâmetros para defini-la, tomando como ponto de partida o que vem a ser a arte segundo os cânones da nossa civilização greco-judaico-cristã, que leva em conta outras culturas somente através de seu ponto de vista como dominadores?
E o que vem a ser o termo brasileiro? O descendente do japonês, do italiano, do árabe também é brasileiro? Ou só na medida em que as raças se cruzam? E o índio, quem é ele nesse processo cultural contemporâneo?
Para o índio o conceito de arte não existe, pois seu mundo não é pautado pela idéia de propriedade privada, nem de mercadoria, para se dar estatuto de arte a algum produto. Dançar, pescar, pintar o corpo ou caçar fazem parte do seu dia-a-dia tanto quanto as árvores, o céu e a terra.
A chamada arte brasileira é aquela que dialoga, cruza, contamina e é contaminada por outra, dita internacional. Uma de suas características principais é a incorporação de elementos culturais vindos de todas as partes do mundo. Seja como dominação cultural, seja como influência nos costumes.
Tanto na música quanto na cultura de um modo geral, a influência indígena é vista quase como um mal a ser evitado. Pouco estudada, pouco catalogada, quem quiser conhecer a maior parte dos registros feitos nas tribos brasileiras tem que recorrer a documentações realizadas por pesquisadores estrangeiros.
Nas artes visuais, o exemplo mais contundente é o da fotógrafa Cláudia Andujar. Judia, nascida em 1931 na Suíça, foi vítima da perseguição nazista e, depois de trabalhar em vários orgãos de comunicação no Brasil, passou a conviver com outra raça ameaçada de extinção: os yanomamis da floresta amazônica. Suas fotos não têm nada do distanciamento de quem registra o exótico, de quem vê de fora culturas alheias, tentando pensá-las a partir de sua visão de mundo. Ao contrário, seu trabalho é um mergulho fundo no espírito daquele povo, como quem capta a alma dos acontecimentos: a floresta, a caça, a maloca, o ritual da droga alucinógena - nesta série, também a fotografia vai entrando em estado lisérgico, enquanto mostra o índio delirando em transe ritualístico.
A arte brasileira, principalmente a contemporânea, tem conseguido ser mostrada no mercado internacional, graças à sua competência, mas internamente lhe falta, de modo geral, descobrir os primeiros povos que aqui habitaram, antes desta terra ser chamada de ‘‘A Terra do Pau-Brasil’’.

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