Para deixar a platéia extasiada
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terça-feira, 18 de fevereiro de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
Kraw PenasGabriel Villela: Eu acho que sou muito delicadoSete peças, sete grandes sucessos. O diretor teatral Gabriel Villela estava mansamente posto neste número quando chegou o convite do Centro Cultural Teatro Guaíra para trabalhar em Curitiba, numa produção oficial. Ele escolheu um texto que coloca entre os cinco maiores da dramaturgia nacional, Aurora da Minha Vida, de Naum Alves de Souza. As razões são muitas, desde a impressionante beleza da obra até seus cabalísticos sete anos.
O diretor percebeu que este tempo pode ser a aurora de uma vida artística profissional. Estou vivendo desse trabalho, estou feliz, uma profissão encantadora, comentou na segunda-feira à tarde, no próprio teatro. Ali ele estava tendo o primeiro encontro com os nove atores que escolhera entre 151 candidatos, no final do ano passado.
Aurora da Minha Vida estréia dia 9 de maio no Teatro Guaíra e até lá tem muito chão pela frente. Villela quer construir um espetáculo para o público se divertir, e mais que isso quer deixar a platéia absolutamente extasiada. Por um lado o encantamento, por outro o tema que é particularmente caro para o diretor - a questão do ensino no Brasil.
Gabriel Villela vê na educação a principal saída para este País. Pelo menos é o princípio para que outras coisas aconteçam, seria o gene para se alcançar uma nova etapa, mais progressiva e prazerosa. A gente só sai dessa história de indigência pelo viés da educação, que é um gomo de uma mexerica chamada Cultura, pensa ele.
Estar neste projeto acabou por juntar tema e intenção, diz satisfeito o diretor. Ele toca na questão do ensino, do sistema falido da Federação, numa casa do porte do Guaíra. É um veículo considerável. Mas com todo o peso político que ela carrega, a Aurora da Minha Vida é feita de delicadeza, ponto essencial para o artista.
Ela é delicadamente construída, poeticamente inspirada. Leva do riso ao choro, à comoção, explica. A admiração pelo texto de Naum é tanta que Gabriel gostaria de poder montá-lo de tempos em tempos até o fim da vida. Cita Chico Buarque e sua música Todo Sentimento para justificar a modernidade de Naum - chegamos no tempo da delicadeza.
Ele afirma: Se não trabalharmos nessa área da delicadeza não tem mais sentido. Porque o sangue já foi derramado, ele não é mais de redenção, é de condenação. Então a gente tem que fantasiar.
Uma mulherO diretor concorda que quando opta por um trabalho procura esse lado de ternura. Eu acho que sou muito delicado, sou uma mulher que nasceu num corpo de homem. Uma mulher no conceito Garcia Lorca - eu entendo mais do avesso do bordado que propriamente do bordado. E sou capaz de discutir criteriosamente esse avesso.
A definição é metafórica, avisa. Não estou declarando homossexualidade, bissexualidade, nada disso. Estou falando de minha alma e alma não tem sexo. O trabalho com os jovens atores começou e agora é inspiração e transpiração até o resultado final. Como o elenco também não tinha tido qualquer contato com o diretor, no fim da tarde de segunda-feira reinava expectativas no ambiente. Pelo astral do momento a parceria deverá resultar em bons frutos.
Em tempo: Aurora da Minha Vida, que vem aí com hinos escolares e brincadeiras próprias da infância, não deve ser tomada como uma peça nostálgica. Ela é feita de reminiscências, corrige o diretor. E reminiscência é um fator humano que atravessa os povos e os séculos. Universal e eterno.


