Salvador - Você já foi à Bahia? Não? Então, vá. Mas vá com calma, meu nego, senão vai se aborrecer logo no aeroporto com a moça da agência de viagens local, que confere a lista de presenças, molinha, molinha, enquanto você, cheio de ansiedade, não vê a hora de sair dali. Tenha paciência com ela, com o garçom, com o taxista. Não se irrite se pedir um paninho de chão para secar o banheiro do hotel, e a camareira esquecer. Esqueceu, ora. Pare com essa mania de querer as coisas para ontem. Nada deixa um baiano mais atrapalhado do que se pedir pressa a ele.
Se puder, além de calmo, vá com tempo. Assim, além da cidade que todo turista vê, você poderá descobrir a cidade dos moradores de lá. E mais: apreciar a singularidade daquela gente. Ouvir suas histórias, curtir seu sotaque, perceber as diferenças não é para isso que se viaja? Aí então, depois desse convívio estreito, é capaz até que você compreenda porque um ''prato feito'' pode demorar 40 minutos. ''Eu estava fazendo agora, no capricho'', explica a dona do restaurante caseiro.
Salvador é muito mais do que praias, Pelourinho, Farol da Barra. Que tal descobrir a cidade a pé? Tudo fica pertinho. Pelo caminho, você vai encontrando as pessoas, o que a cidade tem de mais bonito. Com tempo, disposição e um tênis confortável, você pode descobrir muito mais.
Que tal andar a pé pelo Corredor da Vitória, avenida onde as árvores se entrelaçam e tem o metro quadrado mais caro da cidade. Ali, onde os trios elétricos esperam a vez de entrar no desfile do Campo Grande, ficam belos casarões construídos pelos ingleses, no século 19 e alguns dos mais importantes museus de Salvador, como o Carlos Costa Pinto, o Museu de Arte da Bahia e o Museu Geológico.
Refaça o Caminho da Vila Velha, antiga trilha entre a praia do Porto da Barra e as Portas de Santa Catarina, atual Praça Castro Alves. O porto, localizado numa enseada, com uma paisagem de barquinhos de águas serenas, onde se pode nadar como numa piscina sentindo o cheiro do peixe que é vendido no mercado. No fim da tarde, sentado na mureta, avistar um pôr-do-sol estonteante, com a Ilha de Itaparica ao fundo.
No Porto da Barra, não deixe de ir ao Instituto Mauá, um centro de artesanato com 2 mil peças de cerâmica, cestaria, vidros lapidados, tecelagem, bordados à mão e à máquina. Artesanato de qualidade com acabamento primoroso. Coisas de cair o queixo. Um pouco mais caro do que no Mercado Modelo, sim, mas com qualidade incomparável. Peças em barro, madeira, metal, palha tudo moldado a talento.
Os artesãos são orientados para fazer o trabalho com acabamento perfeito. Frutas em madeira pintada custam R$ 4, berimbau sai por R$ 12, flores de cerâmica por R$ 36,50, carrancas por R$ 26.
Se caminhar no sentido contrário, pela Avenida Sete, em direção ao centro, pare um pouco no Passeio Público, onde ficam o Palácio da Aclamação e o Teatro Vila Velha. Um pouco antes, no Campo Grande, oficialmente chamado de Praça Dois de Julho em homenagem à maior data cívica da Bahia, o dia da independência, se localizam a Casa do Arcebispo, de inspiração inglesa, o tradicional Hotel da Bahia, hoje chamado de Tropical, e o Teatro Castro Alves. Campo Grande virou jardim em 1851, é uma das praças mais populares da cidade e está sendo totalmente reformada.
Seguindo pela Avenida Sete, estreita como todas as ruas do centro de Salvador, com seus sobrados antigos que viram camarotes no carnaval, para se ver a passagem dos trios elétricos, chega-se à Praça da Piedade, que foi reformada e cercada por grades com desenhos exclusivos de Carybé.
Repare nas construções ao redor da praça: o antigo Palácio do Senado da Província da Bahia, a sede do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, o Gabinete Português de Leitura, a Igreja de São Pedro.
Depois de passar devagar, hein? pelo Largo do Relógio de São Pedro e pelo Largo de São Bento há uma ladeira leve e... lá está ela: a Praça Castro Alves, com a estátua do poeta dos escravos dominando a cena. No Carnaval, é a praça do povo, do encontro de trios, do Ilê Ayê, Filhos de Ghandi.
É o palco onde Armandinho Macedo, do trio Dodô e Osmar, deixa os foliões em estado de puro êxtase ao tocar o ''Bolero de Ravel'', ou ''Something'', dos Beatles. No dia-a-dia, apenas um ou outro gato pingado passa por ali.

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