Exibido há dois meses em premiSre mundial no Festival de Berlim, ‘‘Círculo de Fogo’’ desagradou uma parcela da crítica que cobria o evento. Explica-se em parte a resistência. O épico de Jean-Jacques Annaud (‘‘A Guerra do Fogo’’, ‘‘O Nome da Rosa’’, ‘‘O Urso’’) apresenta de fato um único problema: algumas peripécias supérfluas, em especial uma love story convencional, um romance dispensável. Mas são pequenos inconvenientes, diante do todo magnífico.
No outono de 1942, a Alemanha do III Reich está na plenitude de sua capacidade de rapina por toda a Europa. Hitler é um Átila redivivo. Mas para assegurar por completo a hegemonia sobre o continente, é preciso ainda submeter Stalingrado, de importância emblemática. Se a cidade cair, a Segunda Guerra Mundial estará ganha. Nesta cidade martirizada, um jovem russo, Vassili Zaitsev (Jude Law), é jogado em meio ao turbilhão de violência como milhares de outros, combatendo numa batalha de certa forma perdida por antecipação. Mas Danilov (Joseph Fiennes), jovem oficial russo do setor de propaganda política, decide transformar Vassili numa espécie inflamada de herói-símbolo da resistência contra o invasor, resgatando o moral das tropas.
Mais cara co-produção franco-americana já realizada, ‘‘Círculo de Fogo’’ marca o retorno de Annaud ao cinema, depois de três anos. E volta em boa forma, depois do insosso ‘‘Sete Anos no Tibete’’. Aqui o roteirista e diretor mesclou ficção com elementos verídicos, e a partir desta combinação obteve uma transcrição extremamente verossímil da ambientação de terror que imperava em Stalingrado em 42, com a cidade sitiada por uma então sofisticada e ultramoderna armada alemã. O exército russo, tecnologicamente inferior e enfrentando deserções a todo momento, parece não ter qualquer condição de sobrevivência. E é neste momento que o encontro entre dois homens vai mudar o destino de todas as nações envolvidas no conflito. Do lado alemão, o major Konig (Ed Harris) vai desafiar o poder de Vassili quanto à sua capacidade de arrebatamento dos soldados russos.
Hiper-realista na recriação de Stalingrado e dos sets de batalha, às vezes utilizando a câmera com precisão cirúrgica para obter um efeito semidocumental, Annaud fez de ‘‘Círculo de Fogo’’ um grande filme, não apenas um filme espetacular sobre uma batalha cruenta com sua gama de ricas humanidades, mas um desses raros momentos em que é possível refletir sobre nossa capacidade de sobrevivência.

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