Para cantar junto no cinema
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de dezembro de 2009
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
Dois mil e nove foi o ano da consagração dos documentários musicais brasileiros. Um subgênero não necessariamente novo por aqui, mas que só nos últimos tempos ganhou força - e respaldo das plateias. Não à toa, três dos títulos mais assistidos da temporada acabam de chegar às lojas em DVD, no embalo das vendas de Natal: ''Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei'', ''Loki'' (sobre o ex-Mutantes Arnaldo Baptista) e ''Coração Vagabundo'' (que acompanha uma turnê internacional de Caetano Veloso).
''Simonal'', uma das produções recentes mais comentadas na imprensa, encerrou sua carreira com a marca de 71 mil ingressos vendidos. Foi o documentário mais visto do ano, e não apenas entre os musicais. Um desempenho modesto se comparado ao de um filme de ficção de porte médio (''Besouro'', por exemplo, levou 468 mil pessoas aos cinemas), porém respeitável para uma vertente audiovisual sem tanta tradição no circuito exibidor.
O recordista de público, no entanto, continua sendo ''Vinicius'' (2005), de Miguel Faria Jr., com 271 mil espectadores. Seu sucesso o credencia como uma espécie de marco inaugural desta safra, que não deve terminar tão cedo. Para 2010, já estão previstos os lançamentos de longas sobre Tom Jobim, Raul Seixas, Nana Caymmi, Novos Baianos e Mamonas Assassinas. Isso só para ficar nos empreendimentos mais encorpados, pois os projetos independentes também fervilham País afora.
Mas o êxito de ''Vinicius'' é apenas a parte mais vísivel de todo um contexto favorável à produção desse tipo de filme. Contexto que passa, antes de tudo, pela própria tradição musical do Brasil. ''Mais do que um boom, essa tendência é o pagamento de uma dívida com figuras importantes que mereciam ser resgatadas. Coisa que a tevê só passou a fazer agora, com a série 'Por Toda a Minha Vida', da Globo'', opina o crítico Paulo Sérgio de Almeida, fundador da empresa Filme B, que mensura e analisa as bilheterias brasileiras.
Outro fator importante é a relativa facilidade de realização, reforçada pelo barateamento das tecnologias digitais. ''Fizemos tudo com um orçamento muito baixo e praticamente três pessoas na equipe'', conta Paulo Henrique Fontenelle, diretor de ''Loki''. Inicialmente desenvolvido para ser um especial do Canal Brasil, o projeto cresceu e acabou indo parar nos cinemas, onde teve quase 16 mil espectadores.
Da parte do público, o atrativo é a garantia de um programa ao mesmo tempo leve e com ''conteúdo''. ''O documentário musical tem características muito simpáticas para o espectador. Amplia a informação de uma arte que ele já conhece, retrata a parte mais desconhecida dos seus ídolos, conta histórias interessantes, oferece uma ótima música'', diz Marcelo Andrade, curador da versão brasileira do festival internacional In-Edit, especializado no gênero.
Criado há 7 anos na Espanha, o evento (que também acontece no Chile, México e Argentina) tem o objetivo de fomentar a produção e exibir títulos raros. A primeira edição local, realizada em julho deste ano, passou pelo Rio de Janeiro e São Paulo e contou com 30 filmes inscritos, entre longas e curtas. Para a mostra de 2010, marcada para março nas duas capitais, as inscrições duplicaram.
Segundo o curador, as gravadoras e grandes empresas de comunicação enfim descobriram que o documentário musical é um veículo para a difusão de seus produtos. E a tendência, ele prevê, é que se crie uma ''bola de neve'' envolvendo produtores, diretores, festivais, canais de tevê, etc. ''É um fenômeno que está acontecendo simultaneamente no mundo inteiro'', afirma.


