Para autor, Maysa viveu sob o signo da transgressão
O flerte com Roberto Carlos, o tórrido caso de amor com o ator argentino Dulio Marzio, a atitude superior de cantar, com o nariz empinado como se fulminasse a platéia com o olhar, todos os fatos, enfim, da vida de Maysa parecem merecer espaço em sua biografia. Como ela própria adorava criar lendas sobre si, Lira Neto cuidou de checar todas as informações. Confira alguns trechos da entrevista que ele concedeu.
Como se interessou por Maysa?
Sempre me interessei por personagens intensos, contraditórios, que não tiveram existências em linha reta. Maysa é um caso assim. Sua vida turbulenta, recheada de altos e baixos, permeada por zonas de luz e de sombra, estava a pedir uma biografia que a revelasse por inteiro. Além de ser uma artista fabulosa, dona de uma sensibilidade e de um talento incomuns, ela viveu sob o signo da transgressão e da ousadia. Foi uma artista que conseguiu, como poucos, unir a vida artística e o cotidiano em uma única dimensão.
Qual foi sua principal dificuldade?
Ao contrário dos meus livros anteriores, tive a meu dispor a extrema generosidade da família, que me confiou os ''baús'' deixados por Maysa. Isso incluiu os diários íntimos da cantora - escritos por ela desde os 15 anos até o último ano de sua vida - e uma montanha de recortes de jornais e revistas, do Brasil e do exterior. Ao fim, cataloguei e consultei cerca de 100 mil documentos. Com base nesse material, parti para a fase de entrevistas. A maior dificuldade, sem dúvida, foi reconstituir os muitos anos em que ela viveu fora do Brasil. Mas, com base nos diários, nas matérias de jornal e nas entrevistas feitas na Espanha, Argentina e Estados Unidos, foi possível mapear ano a ano, mês a mês, dia a dia, os passos de Maysa lá fora.
Maysa se apaixonava perdidamente?
Maysa viveu com intensidade. Portanto, quando amou, amou intensamente. Mas é curioso perceber que ela parece ter passado a vida inteira em busca de um amor total, sem nunca verdadeiramente vir a conhecê-lo. Houve pessoas que marcaram profundamente sua vida, mas nenhum dos muitos amores que teve parece ter satisfeito toda a sua imensa fome e sua enorme sede de amar
É possível apontar herdeiras de Maysa?
Nesta época impregnada pelo bom-mocismo e pela construção de imagens politicamente corretas no meio artístico, é difícil encontrar semelhanças em relação a Maysa. Viver intensamente, sem dúvida, foi o grande legado que ela nos deixou. ''Só digo o que penso,/ só faço o que gosto/ e aquilo que creio'', ela cantou, na música ''Resposta'', de sua autoria. Difícil vislumbrar, hoje em dia, alguém cantando isso com a mesma emoção e honestidade. (U.B.)





