Para amantes da poesia
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de dezembro de 1996
Luiz Carlos Merten 
Em matéria de presente diferenciado para o Natal, a Abril Vídeo e a Editora L&PM têm um que deve agradar simultaneamente a cinéfilos e amantes da poesia. As duas empresas criaram um produto especial: uma embalagem de luxo que inclui o vídeo com o filme O Carteiro e o Poeta, de Michael Radford, e o livro Cem Sonetos de Amor, de Pablo Neruda.
O conjunto, com o preço médio de R$ 28,00, estará à venda já a partir desta semana em magazines, hipermercados, lojas de vídeo-foto-som, de discos, locadoras e livrarias. Em comunicado à imprensa, a Abril define o presente como de muito romantismo e sensibilidade.
O Carteiro e o Poeta virou um verdadeiro fenômeno ao receber a indicação ao Oscar na categoria principal, de melhor filme. Ganhou somente a estatueta de melhor música, mas isso não diminuiu em nada seu prestígio como obra de categoria.
Grande sucesso nos cinemas de todo o mundo - em São Paulo, ganhou o prêmio do público na Mostra Internacional do ano passado -, O Carteiro e o Poeta ficou meses em cartaz na cidade. É um filme sobre a poesia, inspirado nos exílios de Neruda. Ele não foi caracteristicamente um poeta do exílio, mas as muitas viagens que fez pelo mundo estimularam sua sensibilidade.
Em 1951, já tendo aderido ao Partido Comunista Chileno, mas sem que a sua arte sofresse com as imposições do partido, ele deixou o Chile para percorrer várias regiões da Europa. É nesse período que começa aí que O Carteiro e o Poeta o focaliza.
Metáforas sensuais Na origem do filme está o livro de Antonio Skármeta. Lançado em inglês com o título de Burning Patience em 1987, foi relançado como The Postman. Evoca o tempo em que Neruda viveu numa remota ilha da região de Nápoles, estabelecendo uma relação de amizade com o carteiro que lhe entregava a correspondência. Foram tomadas algumas liberdades em relação à situação real. O carteiro, para só citar uma, era muito mais jovem na verdade: tinha apenas 17 anos. Virou um homem mais maduro para permitir que Troisi interpretasse o papel.
Troisi, nascido nos arredores de Nápoles, é um comediante na tradição do grande Totó. Era um homem-menino de desarmante pureza e sorriso um pouco triste. Olhava para a câmera com permanente assombro. São características que imprimiu a Mário, o carteiro. O poeta (Philippe Noiret) é um homem que recorre à palavra para celebrar o amor. Vive meio absorto na ilha, símbolo do seu isolamento e da distância da pátria amada e distante. Mário ganha, aos poucos, sua confiança. O poeta retribui iniciando-o num mundo de metáforas luxuriantes e sensuais que ele usa para seduzir a bela Beatrice (Maria Grazia Ruccinota).
O carteiro descobre no domínio das palavras, como único elo capaz de ligar e organizar os homens, um senso de si próprio que não tinha antes. A poesia o transforma em outro homem. Mário percebe que a poesia não pertence a quem a escreve, mas aos que dela necessitam. É a reflexão do filme, no qual o carteiro mostra que aprendeu tanto que, no fim, dá uma lição de vida ao próprio poeta. É um raro e belo filme. Sela amizade com arte. Junto com o livro, pode ser aquele presente especial que você procura neste Natal.


