Para alguns, o passado era melhor
Embora seja inegável a evolução que a noite curitibana sofreu nos últimos anos, há quem sinta muita falta de um passado recente. Com saudosismo declarado, antigos notívagos confessam que não se sentem mais tão motivados a encarar as madrugadas, que teriam perdido totalmente o charme.
Antes as opções eram menores, mas muito mais consistentes e interessantes, comenta o produtor cultural e DJ André Gentil, 34 anos. Ele lembra com saudades do lendário porão do Hermes Bar, por exemplo, que nos anos 80 chamava-se Berlim e apresentava a vanguarda do pop rock inglês.
Ele acha que hoje a noite está excessivamente profissionalizada, o que tirou a sua espontaneidade. Antes os locais eram mais radicais e hoje está tudo misturado, diz. Em sua opinião, as casas enormes, que atendem mais de mil pessoas por noite, não podem sobreviver agradando a um só tipo de público ou tocando um só tipo de som, o que faz com que elas percam a identidade.
André lembra também dos primeiros anos do Legends Underground Club, pioneiro da cena clubber em Curitiba, no início da década de 90. As pessoas iam lá sabendo que ouviriam as novidades da música eletrônica européia. Hoje, se tocarmos novidades nas pistas, ninguém dança, compara.
A designer de moda Gisa Gabriel, 30 anos, concorda. A noite regrediu, ataca. Ela acha que as atuais casas noturnas são muito grandes, não têm identidade e os ambientes são confusos. Antes havia muito mais calor humano, diz.
Originário de outra tribo, o produtor cultural e dono de loja de discos Odilon Merlin, 32 anos, também compartilha da mesma saudade. Há dez anos, o Aero Anta mantinha uma constância em shows interessantes e de alta qualidade, lembra. Outro lugar de que sente falta é o Sheena Bar, que funcionava na Rua Inácio Lustosa.
Ele observa o crescimento fulminante da noite curitibana e responsabiliza o grande número de pessoas que vieram de outros Estados e países por isso. Os novos lugares são frequentados por essas pessoas, mas os típicos curitibanos continuam restritos aos bares e casas da moda, como a Rave e o Shiva, garante.
Com uma visão menos pessimista, mas tão nostálgica quanto, o professor de inglês Danilo Silveira, 31 anos, analisa a questão. Hoje há mais opções, podemos sair de segunda a segunda, até de madrugada, que sempre encontramos lugares lotados, comenta.
Sem contrariar a maioria, entretanto, ele concorda com a atual falta de identidade das casas, que não teriam mais uma cara específica, não satisfazendo completamente a nenhum tipo de público. Antes, quando íamos num lugar, era comum conhecer todo mundo que estava lá, lembra com saudosismo. (S.M.)





