Para Alberto Varas, a hora é de reocupar os centros
São Paulo, 19 (AE) - O arquiteto argentino Alberto Varas é um dos principais responsáveis pela cara que Buenos Aires terá no novo século. Há sete anos, Varas desenvolve, como professor da Faculdade de Arquitetura, Desenho e Urbanismo da Universidade de Buenos Aires, um projeto de investigação da infra-estrutura da cidade (trata-se de um convênio acadêmico com a Universidade de Harvard). É também o autor do projeto de recuperação do Retiro, antigo bairro ferroviário da cidade, e dos parques da costa argentina.
A tese de Varas é simples: o projeto urbanístico moderno tem de passar necessariamente pela recuperação dos espaços públicos das cidades, dos portos, regiões comerciais centrais e áreas ferroviárias. "Só haverá um maior apego das pessoas pela sua cidade se houver um melhoramento dos centros urbanos", disse o arquiteto. "Temos de voltar a fixar residência nas ruas centrais das cidades."
Segundo Varas, tanto São Paulo quanto Buenos Aires e a Cidade do México têm um problema semelhante, que é o da "suburbanização", da fuga para bairros distantes. "Esse pensamento anti-urbano, o encastelamento da classe média em bairros de subúrbio encerra o perigo do abandono da cidade e é, por conseguinte, um processo de desintegração da cultura urbana." Para o urbanista, a arquitetura tem um papel depurador a cumprir na reversão desse processo.
Recriar os espaços urbanos é a única saída. Espaços antigos e atingidos pela obsolescência devem ser recuperados. No caso do Retiro, em Buenos Aires, havia uma dificuldade adicional: era uma área de grande afluxo de pessoas, em pleno funcionamento. Já outra área revitalizada da cidade, Puerto Madero, estava praticamente morta - só funcionou bem nos primeiros 15 anos. Revitalizada, tornou-se área chique da cidade.
¶ncoras para a mudança - No caso do centro de São Paulo (que Varas ainda não conhece, mas revela-se ansioso para conhecer), ele crê que os problemas são similiares. O arquiteto pensa que há uma multiplicidade de usos para a nova configuração urbana do centro: recreação massiva, educação, cultura. "Para saber para onde vai a cidade, é preciso saber para onde vai a sociedade", afirma. "O interessante desse fenômeno é que o prédio histórico recuperado acaba dialogando com a região no entorno", afirma. "Funcionam como âncoras para a transformação."
Outro dado que ele considera interessante é que os valores arquitetônicos acabam por tornar-se elementos de peso para o desenvolvimento de áreas urbanas. Claro, nada disso avança se não houver disposição política. "Tem sido um processo muito lento, mas é preciso insistir: a qualidade de vida depende das cidades, que são o patrimônio mais importante dos países", pondera o arquiteto.
Buenos Aires começou a mudar há 15 anos, com a Lei de Autonomia da Capital, que possibilitou maiores entendimentos políticos. Mas Varas vê uma tomada de consciência para os problemas urbanos há menos tempo, uns cinco anos. Segundo ele, os administradores começaram a ver que a cidade poderia determinar o que ele chama de "inversões", com maiores rendimentos do turismo externo e mesmo interno.
Ao lado de Jorge Silvetti, decano da Universidade de Harvard, Varas conduz um programa de pesquisa acadêmica que durou sete anos para terminar sua primeira fase, publicada em livro sob o título "Buenos Aires Metrópolis". Tratava da infra-estrutura urbana. A próxima etapa diz respeito a paisagem e natureza. E a terceira vai tratar do que ele denomina de interstícios urbanos.
O arquiteto Alberto Varas participa pessoalmente da bienal. Ele chega hoje ao País e, além de participar dos debates
será integrante do júri da Exposição Geral de Arquitetos. Sua exposição na bienal, localizada no segundo pavimento, contará com duas maquetes e 42 painéis e é um resumo do seu trabalho nos últimos 20 anos. Além do Retiro, seu projeto mais famoso, também será possível conhecer seu trabalho na Ciudad Universitária de Buenos Aires.
Toda a transformação urbanística recente em Buenos Aires estará bem-representada na 4.ª Bienal. No térreo, será possível conhecer a reforma de Puerto Madero, área portuária da cidade, que sofreu singular intervenção e foi reformada. A paisagem de diques e depósitos foi preservada, mas abriu-se espaço para a utilização dos antigos imóveis por escritórios e restaurantes.





