Para agradar a gregos e troianos
De olho no mercado latino, Joanna se preocupou em fazer um disco que agradasse também ao público brasileiro
Era de se esperar uma empreitada mais incisiva para arrebatar corações hispânicos. Apesar de relativamente conhecida lá fora - onde desde 86 seus discos em português são lançados - até então Joanna não havia cantado um a em castelhano. Verter alguns de seus sucessos seria apostar numa fórmula manjada. Muitos cantores tentaram usar tal expediente e não se deram muito bem. E daí que entre o certo e o duvidoso Joanna preferiu não arriscar e atacou de boleros.
Si, boleros. Justamente numa época em que o vento traz rumores de que esse gênero está faturando - mesmo - a simpatia de românticos do mundo afora. É uma tendência mesmo. Haja vista que Luiz Miguel (cantor mexicano) lançou três discos de bolero e vendeu 40 milhões de cópias no mundo todo - afirma.
Quer dizer, por trás do disco, apesar das boas intenções românticas, há uma bela jogada de marketing. E é nesse ponto que entra a contribuição valiosíssima de Armando Manzanero. Que, mais que imprimir sua mítica grife à Intimidad, ungiu musicalmente a cantora e compositora carioca.
E esse gesto, certamente, vai influenciar e muito no desempenho de vendagem de Intimidad. Tive ao meu lado um monstro sagrado. O que mais me chamou a atenção foi sua sabedoria e humildade. Manzanero é um ser iluminado - derrama-se em elogios.
Se de um lado a intenção é se projetar internacionalmente de forma definitiva, de outro Joanna diplomaticamente não se esqueceu de agradar sobretudo ao público brasileiro, principal responsável pela façanha dela ter vendido até agora 9 milhões de discos em quase 20 anos de carreira. É como diz o ditado: um olho no gato e outro no peixe. O Brasil sempre recebeu o bolero de braços abertos por ser um país de tradição romântica - analisa Joanna.
O que é preciso salientar é que, nos últimos três anos, Joanna vem salpicando um pouco mais de sofisticação à sua carreira através de lançamentos especiais - Joanna Canta Lupicínio Rodrigues (96) e Joanna em Samba Canção (97) e agora com Intimidad. São surpresas agradáveis já que, convenhamos, a cantora está sempre na linha fina entre o popular e o popularesco. Seus trabalhos da década de 80 muitas vezes tinham gostos duvidosos com baladinhas de naná feitas para emplacar nas rádios.
Ora, não há nada de mais em ser uma cantora açucarada. Em ser uma cantora romântica por natureza. Pode ser até cabotino de minha parte, mas acredito que sou verdadeiramente a única cantora romântica da MPB. Meu trabalho não inclui modismos. Obviamente, tento renovar mas mantenho a minha linha romântica, de baladista - afirma ela.
Tá! Mas que era uma judiação ouvir uma cantora com um timbre bonito muitas vezes lançando trabalhos mornos, principalmente alguns da década de 80, ah, isso era. Tomara que esses três últimos lançamentos sejam um prenúncio de que Joanna esteja repensando sua maneira de ver e entender a música popular. Há tempos que se esperava o retorno de sua discreta porém elegante aura de possível diva. (A.M.J.)





