Há 30 anos o Brasil sofreu um abalo sísmico literário com o lançamento da obra de José Mauro de Vasconcelos, ‘‘O Meu Pé de Laranja Lima’’. Assim como foi o extraordinário campeão de vendas da época, logo depois seria execrado como ‘‘literatura menor’’. Sem dar a mínima para modismos e preconceitos, a diretora Cleide Piasecki prepara a adaptação do livro para o palco. A estréia acontece em abril, no Espaço Cênico, em Curitiba, para platéias ‘‘de 8 a 80 anos’’.
O espetáculo que vem sendo ensaiado desde o dia 4 de janeiro por um grupo de jovens atores, ocupou o lugar de outra produção, ‘‘Vovó Delícia’’, de Ziraldo. A produtora Nena Inoue achou por bem esta troca ‘‘porque tem muito Ziraldo por a풒. Com a carta de fiança da Lei de Incentivo Cultural nas mãos, tocou o projeto em frente.
Para Cleide Piasecki, o personagem central do livro ‘‘é um menino tipicamente brasileiro, mas as crianças são assim no mundo inteiro. Então vamos enfocar por esse lado’’.
Mauro FrassonEnsaio do grupo Companhia de Atores: espetáculo chega aos palcos em abrilO livro ‘‘O Meu Pé de Laranja Lima’’ traz um relato autobiográfico onde dor e fantasia se misturam. É como se esta, obrigatoriamente, amenizasse o peso da existência. A montagem, por sua vez, terá um clima lúdico, onde toda ação se desenvolve a partir da visão fantástica do menino.
Sob esse prisma as irmãs de Zezé ganham cores que ele gosta e não gosta de acordo com a preferência que tem por elas. Afinal uma é boa para ele, a outra é ruim. Seu amigo Portuga, a princípio era um homem que despertava enorme temor. Então aparece gigantesco, mas à medida que a amizade cresce entre os dois, seu tamanho diminui, até chegar ao normal.
‘‘Embora eu vá pegar essa coisa de sonho, não vou deixar de dizer que Zezé apanhava, e que o português morreu’’, avisa a diretora. ‘‘Ele vai conhecer a dor, mas também vai ter o sonho. A vida da gente é assim, desde que somos pequenos. Não deixamos de passar pelas coisas’’.
Cleide Piasecki sempre teve a imagem de Zezé como um herói. Queria vê-lo no filme ‘‘O Meu Pé de Laranja Lima’’, mas sua irmã mais velha é que foi ao cinema. Contentou-se então com as cenas que apareciam na publicidade da TV. Para a leitura do livro ela era muito pequena. As impossibilidades contribuiram para alimentar o mito. ‘‘Era meu ídolo, queria casar com ele’’, confessa.
O estranhamento do público com a obra, já em meados dos anos 70, é analisado pela diretora como sendo ‘‘a ânsia de modernidade das pessoas, porque o livro não é uma coisa ultrapassada. A maneira como o autor conta a história de Zezé, como o menino enxerga as coisas, tem muita sensibilidade. Fala de uma criança comum, de uma infância comum, mas com uma beleza universal’’. Assim como ‘‘Cinema Paradiso’’ e ‘‘Menino Maluquinho’’, esta história também é atemporal.
As mágoas que José Mauro de Vasconcelos colocou em sua biografia, diluem-se no espetáculo. Aqui ele aparece como condutor da peça, surgindo raramente numa e noutra cena. ‘‘A nossa história começa com Zé Mauro adulto, descendo o Rio Amazonas numa canoa, que foi o que ele fez. Ele viajou pelo Brasil’’, explica Cleide.
Se no livro a última frase diz ‘‘estala coração de vidro pintado’’, numa vazão de angústias amontoadas no peito, no teatro há um reatamento do adulto com seu passado. Isso acontece quando o escritor perdoa os primeiros anos de sua vida. Em paz consigo mesmo, o autor transita sem peso entre os momentos sublimes num rio no meio da selva, com a aridez de uma infância pobre.
‘‘Viajando, Zé Mauro vê que sua dor, sua pobreza não eram maiores que as de todo mundo; que a infância foi um alimento para a sua vida como escritor. Ele percebe que continua sendo o Zezé que cresceu, que tudo isso continua fazendo parte do seu universo, mas de forma diferente. A peça fala de perdão’’, resume Cleide.DivulgaçãoO ator-mirim Pedro Piovani é o destaque de ‘‘O Meu Pé de Laranja Lima’’Zeca Corrêa Leite

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