PARA ABALAR AS PISTAS
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de outubro de 2001
Nelson Sato<br> De Londrina 
Drum'n'bass é baixo e bateria, mas nas mãos do DJ Patife vira um recreio de metais. É o que mostra ''Cool Steps'' (Trama), o novo e segundo CD, que reforça a linha jazzy de seu trabalho.
Patife, 25 anos, divide com Marky o panteão dos top DJs brasileiros com prestígio no exterior. É residente da concorrida festa Movement, no Bar Rumba, em Londres. Com o nome estabelecido, viaja para a Europa com a mesma frequência do amigo, o número 1 do mundo no gênero segundo a publicação especializada britânica Knowledge Mag.
Marky e Patife até tocam eventualmente os mesmos discos, mas optam por sonoridades distintas dentro do estilo que escolheram. Patife foi fisgado pelo drum'n'bass jazzy de LTJ Bukem e Adam F, tendência marcante no repertório de ''Cool Steps''. Se o CD de estréia, ''Presents Sounds of D'n'B'' (2000), apenas reproduzia um set com faixas alheias, na nova empreitada ele assina pelo menos seis produções próprias, entre criações e remixagens.
O molho brasileiro é acentuado em ''Só Tinha de Ser Você'', canção bossa-nova de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, cantada aqui por Fernanda Porto e retrabalhada coletivamente por Patife, Marky, Esom com remix de Cosmonautics (projeto do produtor Mad Zoo). O tempero verde-amarelo está presente também em ''Grooves, Ritmos, Sons e Vinhetas'', uma vinheta do álbum ''Dis'ritmia'', de Jairzinho, emprestada para um exercício de batidas com participação do saxofonista Andres Salazar.
Em ''Jam Session'', Patife inaugura parceria com o percussionista João Parahyba, do lendário Trio Mocotó, sumido desde os anos 60 e que acaba de retornar com disco novo ao mercado fonográfico. Para encorpar os arranjos, o DJ convocou um naipe de metais formado pelos músicos Bocato (trombone), Márcio Negri (sax) e Daniel Alcântara (trumpete). Participaram ainda da gravação a cantora Karol Bonnato, o violonista Bennati e o já citado Mad Zoo à frente dos teclados.
A faixa-extra ''Sambassim'', cantada por Fernanda Porto, denuncia a tônica rítmica já no título. Como a maioria dos DJs de ponta do país, Patife investe cada vez mais em levadas tropicais. Fora do eixo brazuca, as demais músicas do CD inscrevem-se no registro melodioso e suave, orientando-se menos para a pista do que para o chill-out (o intervalo entre a ferveção e a hora de capotar).
É o que aponta já na abertura a composição ''Torch of Freedom'', de Cleveland Watkiss, com irresistível tempero latino. Segue-se mais latinidade em ''A Go Go'', swingueira dançante do Trub Trio com muita percussão, piano e metais. Uma das surpresas para quem é do meio vem em seguida com ''Revisited'', peça empolgante conduzida por um órgão Hammond, cujos apelos melódicos destoam do tom sombrio e ruidoso que fez fama do Bad Company.
Destaque também é a faixa ''Supergrass'', de Carlito & Addiction, recheada de texturas e grooves elaborados. Ao todo, são 15 faixas mixadas com habilidade de perito. Patife, cujo nome verdadeiro é Wagner Ribeiro, mantém a agenda lotada. Está virando DJ-star, como Marky, que dá autógrafos e tira fotos com os fãs.
No próximo dia 21, estréia um programa na rádio paulistana 97 FM, que irá ao ar todos os domingos às 23 horas com transmissão pelo site www.97fm.com.gr. No dia 15 de novembro, ele viaja à Europa para uma nova maratona de discotecagens só retornando ao Brasil em janeiro. Atualmente, Patife é DJ residente da festa Movement, em Londres, e dos clubs Pulse de Goiânia e Groove de Porto Alegre.
E se Marky virou DJ residente em Londrina, Patife negocia residência em Curitiba. É o que ele conta na entrevista que segue.
O disco traz músicas que não são exatamente para dançar, mas para ouvir. A idéia era transportar o drum'n'bass da pista para as almofadas?
Eu queria ter um CD na praça que as pessoas pudessem escutar em outros ambientes que não fosse a pista. Um CD para relaxar, para namorar, para ouvir em casa enquanto se faz um churrasco.
No disco, você produziu a faixa ''Jam Session'' em parceria com o músico João Parahyba, do lendário Trio Mocotó, que acaba de voltar ao mercado fonográfico. Como foi o processo de criação?
Há tempos queríamos fazer alguma coisa juntos. Eu queria encaixar a percussão dele na minha música. Quando ele gravou, chamei o pessoal dos metais e depois voltei para o estúdio para achar um groove no mesmo andamento. A idéia era trabalhar com músicos mesmo e não ficar sampleando tudo.
Você e o Marky conquistaram os europeus, particularmente os ingleses. A que você atribui esse sucesso?
Acho que é a técnica, a forma que a gente toca, a fé que temos na música desde 92, 93, quando uma cena foi sendo construída a partir de festinhas em vilas e escolas. E o fato de ser do Brasil também chama a atenção o pessoal lá fora. Eles passam mal com o nosso suingue.
Porque é só na cena drum'n'bass que o Brasil tem se destacado no exterior?
Não é só o drum'n'bass não. DJs de outras vertentes da música eletrônica também estão fazendo sucesso lá fora, como o Mau Mau que acaba de retornar de uma turnê pela Turquia e região, e o Anderson Noise que é residente bi-mensal de uma noite chamada Head Start no club Turnnills, em Londres. O que falta é divulgar mais todo mundo.
Como está sua agenda?
No dia 15 de novembro retorno para a Europa. Tenho três datas em Portugal, cinco na Alemanha, além de França, Escócia, Itália, Irlanda e várias cidades inglesas. Fora isso, tenho residência na festa Movement, no Bar Rumba, em Londres, que puxa toda a história. No Brasil, tenho residências na Pulse em Goiânia e na Groove em Porto Alegre. Estou fechando também com um club (UPP) de Curitiba.


