Faltando avaliar os últimos dois filmes da mostra competitiva exibidos nesta ultima rodada do 59º Festival de Cannes, ontem à noite o argentino ‘‘Crônica de Uma Fuga’’ e hoje cedo o espanhol ‘‘El Laberinto Del Fauno’’, pelo que se viu até a penúltima hora não restam maiores dúvidas sobre os caminhos que o júri deve trilhar. Não são exatamente obviedades, mas certas naturais imposições.
  A não ser que os dois títulos citados acima sejam excepcionais, a lógica e o bom senso sinalizam na direção de ‘‘Babel’’ e ‘‘Volver’’, dois filmes de diretores latinos, Alejandro Gonzalez Iñárritu e Pedro Almodóvar, respectivamente, como potenciais candidatos à Palma. Mas a irrefutável simpatia em torno da honestidade de propósitos do recém-chegado argelino ‘‘Indigènes’’ pode influenciar algumas cabeças. O que vier, porém, fora destes candidatos será mesmo surpreendente, em alguns casos até absurdo.
  Ideal para uma sessão da tarde, o último concorrente francês, ‘‘Quand J’Étais Chanteur’’, conta uma história simples e não tão profunda quanto parece à primeira vista. Mas conta com garra e paixão: é o encontro improvável entre uma jovem mulher, corretora imobiliária (Cécile de France) e um já bem maduro cantor de salões de baile (Gérard Depardieu). O melhor deste filme amável e a que se assiste com prazer é a trilha musical com uma dúzia de ótimas canções, todas interpretadas, com voz muito agradável, pelo próprio Depardieu. O filme, aliás, foi feito na medida. Nada injusto, se o premio de melhor ator for para ele.
  O português na competição, ‘‘Juventude em Marcha’’, com suas duas horas e meia de planos estáticos em cima de personagens verborrágicos, foi responsável por uma das maiores debandadas da sala em tempos recentes. A cada quinze minutos saiam dezenas de jornalistas, e ao final restava aí por volta de dez por cento de estóicos.
  O diretor Pedro Costa não é fácil, suas história em torno de deserdados sociais provenientes da ilha de Cabo Verde é construída a partir de uma espécie de ascetismo que o aproxima do cinema de Robert Bresson. Daí que o acesso ao filme não passa pelo circuito comercial. Está mais para templos de poucos cinéfilos devotos de uma estética de assimilação lenta e penosa.
  Ainda repercute, quatro dias depois, a festa digna da corte perdulária dos luíses que a produção de ‘‘Marie Antoinette’’ ofereceu depois da projeção de gala. Entre fogos de artifício, gastronomia e ‘‘liqueurs’’, o custo total chegou a 900 mil euros, engrossando o orçamento final do filme, de US$ 45 milhões. Mas as perspectivas de bilheteria não são nada promissoras.
*O jornalista está em Cannes a convite da organização do festival

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