Um dos baluartes da black music brasileira foi içado do ostracismo. Quase uma década depois de seu último disco chegar às lojas, Cassiano tem novamente suas canções à disposição do público com o lançamento do CD ‘‘Cassiano / Coleção’’ (Dubas/Universal).
O disco é uma antologia de preciosidades soul, sotaque que ele e Tim Maia introduziram na MPB. Reúne faixas de seus três primeiros álbuns ‘‘Imagem e Som’’ (1971), ‘‘Apresentamos Nosso Cassiano’’ (1973) e ‘‘Cuban Soul / 18 kilates’’ (1976) – todos fora de catálogo e difíceis de se encontrar até em sebos abastecidos das capitais.
O repertório inclui ‘‘A Lua e Eu’’ e ‘‘Coleção’’, seus maiores sucessos. A seleção das 14 músicas e todo o processo de produção ficou a cargo de Ed Motta, discípulo confesso do cantor e compositor paraibano e que ficou responsável por todas as etapas do projeto. Cassiano, ilustre desconhecido para as novas gerações, é um dos malditos da MPB.
Já foi chamado de ‘‘o guardião do soul tropical’’. Está com 57 anos. Foi revelado no disco de estréia de Tim Maia, que estourou com a música ‘‘Primavera’’, de sua autoria. Na década de 70, emplacou nas paradas as baladas ‘‘A Lua e Eu’’ e ‘‘Coleção’’, as duas em parceria com Paulo Zdanowski (ex-Brylho, do hit ‘‘A Noite vai ser Boa’’).
Depois pegou pneumonia, perdeu um pulmão e sumiu do showbizz. Ficou quinze anos sem gravar. Ressurgiu em 1991 com o álbum ‘‘Cedo ou Tarde’’ onde mesclou regravações e apenas quatro faixas inéditas cantando em dueto com Djavan, Marisa Monte, Luiz Melodia, Sandra de Sá, Cláudio Zoli, karla Sabah e o próprio Ed Motta. De lá para cá, suas aparições foram ficando cada vez mais raras.
Há quem atribua seu afastamento à saúde debilitada, outros apontam o boicote do mercado fonográfico e há ainda os que culpam seu temperamento perfeccionista que dificultaria inclusive a contratação de músicos para acompanhá-lo em shows e gravações. O fato é que, ao ostracismo, correspondeu o crescimento do mito.
Mas ‘‘Cassiano / Coleção’’ vem redimir uma parte da memória musical recente do país. ‘‘É um absurdo que Cassiano tenha ficado tanto tempo sem oportunidade de mostrar suas invenções que com certeza fazem falta em nossas almas’’ – escreve Ed Motta no encarte . O sobrinho de Tim envolveu-se em cada detalhe da compilação.
Na fase de remasterização, procurou preservar a sonoridade de época recuperando a qualidade das gravações a partir das fitas originais. Ao preparar o projeto gráfico, orientou para que o material remetesse às capas dos long-plays dos anos 70. No encarte, cuidou para que entrassem todas as letras responsabilizando-se ainda pelo texto de apresentação e comentários sobre as faixas garimpadas e seus respectivos álbuns.
Cassiano não participou da elaboração do trabalho. ‘‘Ele pegou o CD já pronto, adorou e ficou emocionado’’ – conta Edison Vieira, coordenador de produção do selo Dubas. Do álbum de estréia, ‘‘Imagem e Som’’, foram compiladas as faixas ‘‘É Isso A풒, ‘‘Jᒒ, ‘‘Uma Lágrima’’ e ‘‘Não Fique Triste’’ (esta foi gravada também por Tim Maia em 1980).
Esse disco contou com arranjos de Waldyr Arouca Barros e teve participação especial do grupo Os Diagonais, com o qual Cassiano gravou alguns compactos e o LP ‘‘Cada um na Sua’’. Também marcou presença o lendário baixista Capacete, comparado no Brasil ao baixista James Jamerson, da Motown (gravadora responsável pela explosão mundial do soul norte-americano).
Do segundo álbum, ‘‘Apresentamos Cassiano’’, foram extraídas as canções ‘‘Casa de Pedra’’, ‘‘Melissa’’ (feita em homenagem à filha) e ‘‘Cedo ou Tarde’’ (regravada em seu disco de 91 quando dividiu os vocais com Marisa Monte). Segundo Ed Motta, este disco traz influências da estética psicodélica e do rock progressivo, o que se evidencia na faixa ‘‘Casa de Pedra’’.
Curioso notar a mudança na voz do cantor do primeiro para o segundo disco, quando os falsetes se sobrepõem aos timbres graves iniciais. É do terceiro álbum ‘‘Cuban Soul – 18 Quilates’’, no entanto, que vem a maioria das contribuições para a antologia. Disco preferido de Ed, traz as já citadas ‘‘A Lua e Eu’’ e ‘‘Coleção’’, além de ‘‘De Bar em Bar’’, ‘‘Hoje é Natal’’, ‘‘Salve Essa Flor’’, ‘‘Ana’’ e ‘‘Saia dessa Fossa’’.
Neste trabalho, Cassiano mostrou que não só era notável cantor e estupendo compositor como também versátil instrumentista tocando guitarra, baixo, piano e bateria. Seus grandes sucessos, ‘‘A Lua e Eu’’ e ‘‘Coleção’’, foram incluídos respectivamente nas trilhas sonoras das novelas ‘‘O Grito’’ e ‘‘Locomotivas’’, ambas da TV Globo.
A compilação é a primeira de uma série especial que o selo Dubas planeja lançar tirando do limbo fonogramas guardados nos arquivos das grandes gravadoras. O disco de estréia da coleção chega ao público cheio de méritos, ainda que não seja a reabilitação integral do homenageado, só possível com um álbum trazendo suas canções inéditas.
De todo modo, o CD vem impulsionar a revalorização da black music tropical, tendência vísível na temporada com o retorno ao estúdio de gravação de Gerson King Combo (outro mestre do soul e do funk verde-amarelo dos anos 70) e os lançamentos da coletânea ‘‘Soul Brasileiro’’ e dos discos de Max de Castro, Jairzinho de Oliveira, Simoninha e Funk Como Le Gusta.

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