Jackeline Seglin
De Londrina
Há tempos a poesia pega carona em diversos veículos alternativos de divulgação. Já foi comum encontrar versos impressos em toalhas de papel em mesa de bar, guardanapos, camisetas (varais) e outros suportes. Na década de 90, em plena era digital, a poesia vai para a mesa do londrinense logo cedo, no café da manhã. Desta vez, o suporte é o saquinho de pão.
A Secretaria da Cultura de Londrina vai lançar o projeto ‘‘Pão e Poesia’’ em parceria com o Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitarias do Norte do Paraná (Sindpanp). A idéia não é inédita. Há cerca de três anos, um panificador de Londrina pediu que o jornalista e poeta Nelson Capucho cedesse um de seus poemas para ilustrar os saquinhos de pão de sua padaria. Agora, a iniciativa da secretaria vai proporcionar um projeto em maior escala.
Pensando em uma maneira de editar os poemas do Mural 1999, a secretária da Cultura, Angela Marçal, lançou a proposta como forma de viabilizar a idéia, além de prestigiar os poetas locais e criar no público em geral o hábito de ler poesia. ‘‘O projeto vai atingir todas as classes sociais. As pessoas terão mais acesso e poderão até colecionar os poemas’’, avalia.
A Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina será a responsável pela seleção dos textos, entre os 71 poemas do mural.
O acordo com o Sindpanp está fechado. O presidente da entidade, Lauro Kleber, tem 40 anos de experiência no ramo e aprovou a idéia, tratando de agilizá-la. Ele entrou em contato com duas empresas fabricantes de embalagens e algumas das 300 panificadoras da cidade, constatando uma boa receptividade.
O único custo deste projeto seria a confecção do clichê com a poesia. ‘‘Mas é um custo relativamente baixo, que poderá ser assumido pela secretaria ou pelo sindicato. As panificadoras somente acrescentariam o clichê no verso do saquinho’’, diz Kleber. Ele acredita que as primeiras embalagens com pão e poesia devem aparecer ainda este mês e que, com a renovação dos estoques, a incidência tende a aumentar.
A possibilidade de colocar a própria criação num suporte que pode parar no lixo incomoda certos artistas, principalmente pelo fato aludir a uma certa banalização do trabalho. Outros, no entanto, são seduzidos pela idéia de ter seus versos atingindo uma extensa faixa de leitores, de forma diferenciada e não elitizada.
O poeta e jornalista Marcos Losnak acredita que não é exatamente o suporte em que a poesia está impressa - no caso, a embalagem de pão - que pode provocar sua banalização, mas a própria poesia. ‘‘Por outro lado, o fato do suporte ser descartável pode sugerir que a poesia nele impressa também seja descartável. Isso seria apenas um reflexo do mundo atual, onde tudo é banal, onde tudo é descartável, onde não há espaço para uma arte que fique, mas uma arte que passa’’, observa. Para Losnak, a idéia se completaria se o poema fosse criado especificamente para tal finalidade.
Na opinião de Karen Debértolis, poeta e jornalista, a proposta é interessante porque, conforme for colocada, vai possibilitar um acesso maior à poesia. ‘‘Acho uma idéia legal. Inclusive, já foram realizados projetos semelhantes em Curitiba. Com isso, as pessoas lêem o trabalho - o que é uma coisa complicada, tanto pelo acesso do público quanto pela divulgação do autor’’, comenta.
Karen Debértolis diz que esta embalagem é um meio de divulgação que torna a proposta interessante. ‘‘Não acho que seja uma banalização. Hoje tem poesia na Internet, em outdoors, em vários suportes.’’ A jornalista ainda sugere uma ampliação do projeto. ‘‘Colocar em pacotes de livrarias, por exemplo. Em tudo quanto é lugar. Pode ser um fruto do futuro. Os olhos dos consumidores podem cair na poesia. Quem sabe pode até despertar o interesse das pessoas em escrever’’, finaliza.Projeto quer imprimir poemas em saquinhos de pão para divulgar escritores e incentivar a leitura
Arquivo FolhaAngela Marçal: ‘‘Projeto atinge todas as classes sociais’’Mario CesarA poeta Karen Debértolis não acredita que a idéia possa banalizar a poesiaDorico da SilvaLauro Kleber, dono da Panificadora Central e presidente do Sindpanp: ‘‘As panificadoras apenas acrescentariam o clichê no verso do saquinho’’

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