Numa entrevista coletiva ano passado no Festival de Veneza, depois de já ter concluído este ‘‘Pânico 3’’ (veja a programação de cinema na página 5), Wes Craven, então em lua-de-mel com ‘‘Música do Coração’’, o risível melodrama que acabara de cometer em cumplicidade com Meryl Streep, sentenciou que, para ele, o gênero tinha chegado ao fim. Entre cínico e sério, disse que estava querendo ser recebido pelo presidente na Casa Branca, e com Freddy Kruger & companhia isto jamais seria possível. Nesta última trilogia, o diretor efetivamente cumpriu a promessa. Utilizando um enorme cinismo como arma do crime, ele encerrou um ciclo e sinalizou que o terror sobrevivente para este limiar de século seria aquele confeccionado sob uma forma light, simulada, sugerida, pós-moderna, e com frequência mais engraçada que arrepiante. Aquele terror onde mais e mais pessoas, na tela e na platéia, não se dão ao trabalho de acreditar. Apenas curtem. Ou não.
Desta vez a ação leva a Hollywood os atores sobreviventes dos ‘‘Pânicos’’ anteriores. Lá está sendo rodado um filme chamado ‘‘Stab 3: Return to Woodsboro’’, baseado em alguns terríveis eventos ocorridos em Woodsboro. E tome auto-referência. Uma, duas mortes: o assassino - você já conhece o tipo, de máscara e escondido sob um manto negro - está retalhando os atores do filme dentro do filme na mesma ordem em que eles morrem no roteiro. Mas a terceira vítima não está tão fácil assim de prever. ‘‘Há três diferentes versões no roteiro, para manter o fim do filme a salvo da Internet’’, diz um executivo. ‘‘Só não sei qual versão o assassino leu’’. Isto pouco importa. O fax dá o sinal, e o chamado é dele, transmitindo páginas de um script revisado. E tome sangue.
E tome clichês também, aos borbotões. De vez em quando uma pequena pausa, para o espectador avaliar - evidentemente convidado para isso - como funciona o meta-cinismo de Craven. Segundo alguém teoriza em ‘‘Pânico3’’, a diferença entre uma trilogia e uma sequência é que as sequências prosseguem sempre e sempre, enquanto a trilogia tem um início, um meio e um final. ‘‘Na trilogia ninguém se salva. Até o herói pode morrer no último capítulo’’. Este blá-blá-blá serve unicamente para validar a idéia de que em qualquer circunstância, série ou trilogia, todos os personagens e todos os espectadores conhecem todos os clichês do gêneros. E mesmo assim são apanhados por eles.
Mesmo sem incensar os três filmes, há detalhes bem desfrutáveis e inventivos na série ‘‘Scream’’. Como o quebra-cabeças pop que brinca com a cultura de bolso do espectador adolescente. Numa espécie de ‘‘quiz show’’ sobre a mecânica do medo, a garotada vem se divertindo desde o primeiro momento, em 96. E nesta terceira ocorrência, alguns convidados especiais, por exemplo, fazem a festa dos cinéfilos. Como o mestre Roger Corman, um dos gurus do horror B. Ou na melhor sequência de diálogos do filme, quando Courteney Cox Arquette e Parker Posey entram num estúdio atrás de pistas que levem ao assassino e dão de cara com uma certa assistente de produção. É ninguém menos que Carrie Fisher, a princesa Leia de ‘‘Guerra nas Estrelas’’, idos de 1977. Uma delas pergunta: ‘‘Você não é...? E Carrie, revirando os olhos com ar intrigante: ‘‘As pessoas pensam o todo tempo que eu sou ela, mas ficou com o papel quem dormiu com George Lucas...’’ Quem também dá o ar da graça é o ex-indie Kevin ‘‘Dogma’’ Smith, aliás na folha de pagamento dos irmãos Weinsten, os donos da Miramax
‘‘Scream 3’’ é em essência o entrelaçamento de cenas irônicas e momentos de sustos. O roteirista Ehren Kruger - menos inspirado que Kevin Williamson, criador da série e autor dos ‘‘Scream’’ anteriores - não perdoa a ‘‘cultura do celular’’. Ele transforma o aparelho não apenas em fator conveniente, mas também indispensável para a movimentação de todos, perseguidor e perseguidos, que podem estar em qualquer lugar, e ameaçar e pedir socorro a quem quer que seja.
O ‘‘Pânico’’ inaugural, de 1996, jogava dentro de um filme de horror os espectadores de um filme de horror. ‘‘Pânico 2’’, de 97, massacrava os espectadores de ‘‘Pânico’’ - mais precisamente de ‘‘Stab’’, o filme de horror dentro do filme do horror baseado em acontecimentos narrados no primeiro episódio. Agora , ‘‘Pânico 3’’ extermina quase todos os participantes das filmagens de um terceiro episódio da série. Com base nesses dados, seria possível dar infindáveis voltas nas férteis cabeças dos roteiristas hollywoodianos imaginando um ‘‘Pânico 4’’. Algo assim como se os frequentadores do site ‘‘Pânico 3’’ fossem trucidados, e onde o assassino substituísse o telefone celular e o fax pelo e-mail. Depois, um ‘‘Pânico 5’’, no qual seriam abatidos, um a um, os criadores do tal site...Afinal de contas, apesar de dizer que não volta mais com a série e que aposentou o gênero, não faz sentido Wes Craven ter deixado Sidney Prescott olhando aquela porta aberta no último plano deste ‘‘Scream 3’’. Ou faz ?

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