Por todos os cantos do nosso Brasil existe um pandeiro. E, por trás deste instrumento, um pandeirista que toca em grupos de choro, samba, orquestra, ou até amadores que simplesmente carregam seu instrumento aonde quer que vão, fazendo a ''festa'' em reuniões de amigos.

No exterior, mesmo não sendo tão popular, o som brilhante e preciso vindo do pandeiro fez com que o guitarrista de jazz Scott Finer saísse de Nova York e fosse até o Rio de Janeiro para se afinar com músicos locais e aprender mais sobre o instrumento. Pela Biscoito Fino, o instrumentista lança o CD Dois Mundos, o segundo de sua carreira, no qual reforça a intensidade rítmica como pandeirista revelando sutilezas e algumas surpresas.

Para acompanhá-lo na gravação do álbum, Feiner convidou o trompetista Jessé Sadoc, o saxofonista Marcelo Martins, o pianista David Feldman e o baixista Alberto Continentino. Entre as nove faixas, cinco são de autoria própria, enquanto as releituras se destacam com ''Asa Branca'' (Luiz Gonzaga) e ''Retrato em Branco em Preto'' (Tom Jobim/ Chico Buarque). Sobre a sua relação com o pandeiro e a música brasileira, Scott Finer falou à Folha2. A seguir, os principais trechos da entrevista.


A respeito de seus ''dois mundos'', como aconteceu o encontro do jazz com o pandeiro

?

Foi uma coisa completamente orgânica. Eu tenho um background forte com jazz. Me formei em guitarra de jazz e toquei profissionalmente durante anos em Nova York. Tenho dois CDs como guitarrista. No Rio, já como pandeirista, eu tocava samba e choro. Adoro fazer isso, principalmente tocar em roda de samba, mas chegou uma hora em que eu comecei sentir um pouco de saudades da linguagem jazzística. Durante uma visita à minha cidade natal eu fiz uma apresentação informal de duo com o violonista do meu primeiro CD, Freddie Bryant. Ele me ajudou a juntar estes dois mundos.

Quando você veio ao Brasil pela primeira vez, o que da sonoridade brasileira te despertou mais a atenção?



Na primeira viagem passei oito dias em Recife e três no Rio. Lembro que eu cheguei no dia de aniversário da cidade de Olinda. Estava rolando uma festa cheia de forró, frevo, maracatu, e eu estava querendo escutar bossa nova e samba! Achava que estava perdido, pois sabia quase nada da cultura/música nordestina naquela época. Fiquei um pouco confuso no começo, mas lembro que eu achei o Maracatu impressionante. A primeira vez que eu vi o pandeiro foi em Olinda, com um menino tocando na rua. Começou tudo ali.

Qual conhecimento você tinha da música brasileira?



Minha história com a música brasileira começou em 1993 - seis anos antes de conhecer o país pessoalmente. Renato Chicco, um ótimo pianista que adorava bossa nova, me emprestou três CDs do João Gilberto. Fiquei louco por aqueles discos! Depois do João conheci a música do Dorival Caymmi, Gil, Djavan, Chico, etc. Não é fácil para o estrangeiro saber comprar um disco no começo do ''namoro'' com a música brasileira.

Ouvi dizer que você está produzindo um documentário sobre o pandeiro...


Antes de vir definitivamente para o Brasil, em 2001, eu peguei uma tendinite horrível no meu braço e punho. Então, como eu não podia tocar, decidi colocar minha paixão pelo instrumento num documentário. Antes de começar já tinha nome - ''Meu Coração é um Pandeiro''. Cheguei aqui e comecei filmar e produzir sozinho. Falava quase nada de português. Filmei muita coisa. Mas não tenho background em cinema, somente em fotografia. Tenho muita matéria legal, mas não terminei o projeto - é difícil fazer sozinho. Quando voltei a tocar, o filme ficou de lado. Eu gostaria de arrumar uma verba para fazer um projeto maior, no Brasil inteiro. Precisa de patrocínio e uma boa produtora.

Serviço
- CD Dois Mundos
Músico - Scott Feiner
Gravadora - Biscoito Fino
Preço - R$ 29

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