Palma(s) para Pedro Almodóvar
Afinal um candidato pleno à premiação máxima desse qualitativamente ainda mal resolvido 52º Festival de Cannes. Todo Sobre Mi Madre, décimo terceiro filme do espanhol Pedro Almodóvar, sacudiu a semiletargia que até sábado tomava conta da mostra competitiva e com inteira justiça monopolizou todas as atenções. Não é para menos: a estréia do diretor na seção competitiva do mais importante festival do planeta, depois de meses de hesitação diante do convite para vir a Cannes, revela uma maturidade que vinha se desenhando nos últimos trabalhos, mas que ainda aguardava o momento da plenitude criativa.
Pois o momento chegou e os longos e emocionados aplausos - por duas vezes durante a projeção, e pela primeira vez desde o início da mostra - ao final, quando surgiram os créditos, e em seguida o corre-corre rumo à sala de coletivas deram a medida da justa recepção ao filme. Recepção ainda mais calorosa com a entrada triunfal do cineasta, acompanhado de seu quinteto de esplêndidas atrizes: Marisa Paredes, Cecília Roth, Penélope Cruz, Antonia San Juan e Candela Pe¤a.
Inspirado pela generosa acolhida ao filme minutos antes, descontraído, bem-humorado e muito divertido, distante mesmo da imagem de irritado e temperamental que costuma passar, Almodóvar conversou por uma hora com os jornalistas e falou apaixonadamente sobre todos os assuntos. De seu método e estilo de trabalho(muito coração mas também muita austeridade e sobriedade) a influências diversas (Fassbinder, o melodrama americano dos anos 40 e 50, o cinema de lágrimas latino-americano, em especial o mexicano e o argentino); de política (minha personagem-mãe argentina tem a ver sim com o General Videla, ou espero que Pinochet ainda esteja confinado até meu próximo filme, para que possa fazer uma referência a ele).
Falou ainda sobre família (mudou muito neste fim de século, e na Espanha me parece que muito mais, nos últimos vinte anos com a democracia e sob o regime socialista); do homossexualismo assumido (entre as coisas que Fassbinder e eu tínhamos em comum estava o fato de gostarmos ambos de pessoas do nosso sexo); da relação de seu cinema muito pessoal com o dinheiro dos produtores (o cinema de sentimentos é muito mais barato, sem nenhum efeito especial, feito com autenticidade mas sem complacência para com espectador. duro e às vezes cruel, como Kieslovski por exemplo) à sua maneira de encarar a vida em geral ( quero muito mais que a vida pode oferecer, sou um eterno insatisfeito!)
E um comentário final e especial sobre as mulheres: São mais sábias no mundo dos afetos, permitem que o ciclo da dor seja natural, têm mais profundidade no tratamento, são mais curiosas, mais disponíveis para se relacionar. As que aparecem em meu filme são mulheres sozinhas, solteiras ou separadas. Sós, mas donas de sua solidão. Não por acaso Almodóvar dedica seu filme à mãe, a todas que querem ser mães, às atrizes Bette Davis, Gena Rowlands e Romy Schneider.
O título Todo Sobre Mi Madre é referência ao original americano All About Eve, de Joseph Mankiewicz, um dos momentos máximos de Bette Davis - é, e não disfarça, um melodrama flamboyant, na melhor tradição hollywoodiana, uma história sobre mães e filhos, sobre família, sobre identidade, sobre sentimentos que transbordam e não se tolhem.
Como sempre, o território almodovariano são as relações afetivas e suas complexidades, as dificuldades de se manter as coisas estáveis, a capacidade de aceitação de comportamentos não padronizados, não estandartizados, o instinto permanente de superação. Aqui temos um filme trágico, mas não um filme triste. Se as emoções chegam a provocar lágrimas é por causa da esperança que elas trazem junto.
As cinco mulheres que tentam reciclar entre si as dores de perdas são tragicômicas (o humor está sempre nas imediações). Manuela, a mãe que vê morrer atropelado o filho adolescente, sem contar que o pai saiu de casa e agora tem bigodes convivendo com um par de seios e atende pelo nome de Lola, sem no entanto deixar de ser machista. Huma Rojo, a atriz que interpreta no palco a Estela de Um Bonde Chamado Desejo, não suporta mais a ligação com outra atriz, Nina, que se droga e se destrói aos poucos.
Irmã Rosa, a jovem freira, grávida, e que foi seduzida pelo travesti Lola. E Agrado, um transformista que se prostitui até fazer parte deste círculo de seres que vivem num turbilhão de paixões - a definição se justifica diante da soma de alternativas melodramáticas propostas por Almodóvar. E diante das situações é possível perceber com transparência as influências maiores e mais marcantes, diretores como Douglas Sirk e atrizes como Bette Davis e Joan Crawford, filmes explicitamente citados como A Malvada e homenageados em bifurcações do roteiro.
Desta vez com Barcelona como cenário, a fotografia do filme foi entregue ao brasileiro Affonso Beatto, que volta a colaborar com Almodóvar depois de Carne Trêmula. E seu trabalho é fundamental para o bom resultado: ao invés de pintar de maneira impressionista a tragédia como um todo, Beato ressalta as emoções dos personagens com matizes mais expressionistas.
Para a cobertura do Festival de Cannes, o jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge conta com o apoio da Internet by Sercomtel.France PressPedro Almodóvar cercado pelo quinteto de atrizes de Todo Sobre Mi Madre: recepção calorosa em festa que beira a semiletargiaCarlos Eduardo Lourenço Jorge
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