Agência Estado
O cineasta iraniano Abbas Kiarostami era ontem um homem feliz. Recebeu a Palma de Ouro do 50º Festival Internacional do Filme de Cannes por ‘‘The Taste of the Cherry’’ (‘‘O Gosto da Cereja’’). O prêmio foi dividido com ‘‘The Eel’’ (‘‘A Enguia’’), do japonês Shoei Imamura. No seu discurso de agradecimento, Kiarostami falou da sua felicidade de estar em Cannes. Explica-se: seu filme, que trata do suicídio, sempre foi um dos mais cotados para integrar a seleção oficial, mas inicialmente o governo iraniano não queria autorizar sua participação na competição. O festival já estava começando quando um acordo entre os ministérios da Cultura e das Relações Exteriores do Irã liberou a cópia e autorizou Kiarostami a viajar para a França.
A presidente do júri deste ano, a atriz Isabelle Adjani, é francesa de origem argelina. Tem uma ligação forte com o mundo muçulmano. Além do prêmio para Kiarostami, o júri atribuiu o prêmio especial do 50º aniversário, que foi para outro batalhador contra a censura: o egípcio Youssef Chahine concorreu com ‘‘Al Massir’’ (‘‘O Destino’’), sobre a vítima do filósofo Averroes, mas foi premiado pelo conjunto de sua obra.
O canadense de origem egípcia, Atom Egoyam, que recebeu no último sábado o prêmio da crítica, foi contemplado com o grande prêmio de júri por ‘‘The Sweet Herenfter’’. Um dos favoritos, o cineasta de Taiwan, Ang Lee, teve de se contentar com o prêmio de roteiro (para James Schamus) por ‘‘The Ice Storm’’. O prêmio de direção foi para o diretor de Hong Kong, Wong Kar Wai, por ‘‘Happy to Gether’’. O melhor ator foi o americano Sean Penn, por ‘‘She’So Love Ly’’, de Nick Cassavetes, e a melhor atriz, a inglesa Kathy Burke, por ‘‘Nil by Mouth’’, de Gary Oldman. Finalmente, o francês de origem peruana, Manuel Poirier recebeu o prêmio especial do júri por ‘‘Western’’. O diretor de fotografia, Thierry Arbogast, recebeu o prêmio técnico da Comissão Superior de Cinema por dois filmes: ‘‘She’So Lovely e O Quinto Elemento’’, de Luc Besson (em cartaz nos cinemas brasileiros).
Gafes e errosA cerimônia de encerramento, que, pela primeira vez, foi transmitida diretamente para o Brasil (pela TVA), foi uma comédia de erros marcada por muitas gafes e equívocos. Teve como apresentadora a grande atriz francesa Jeanne Moreau. A premiação, muito eclética, traduz o que foi o festival. Cannes 97 vai passar para a história como um ano de competição fraca.
Mesmo os diretores mais premiados, como Kiarostamie Egoyam não se apresentaram na sua melhor forma. Embora ninguém tenha falado nisso, Kiarostami, com certeza, ganhou mais pelo conjunto de sua obra que pelas qualidades (não excepcionais) de ‘‘O Gosto da Cereja’’. O cineasta foi o primeiro a declarar, em inglês, que a premiação era ‘‘unbelievable’’ (é inacreditável).
Um raro momento emocionante foi quando o veterano Chahine disse que esperava o prêmio desde 1950. ‘‘Valeu a pena’’, disse ele, dedicando o prêmio do 50º Festival aos jovens, ‘‘que devem ter perseverança e não desistir nunca’’.

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