Cannes - Em duas dezenas de anos seguidos, não me lembro de ter presenciado uma sucessão de erros bizarros como os cometidos pelo júri deste 69º Festival de Cannes, encerrado ontem à noite. Contra todos os prognósticos, e especialmente contra o bom senso (em verdade, o senso comum de milhares de testemunhas, críticos ou não, que assistiram a toda a seleção oficial nas telas do Palais), o grupo de jurados cometeu as mais variadas e sérias trapalhadas. E justamente por isso "os nove odiados" foram recebidos com estridentes vaias quando entraram para a coletiva após a cerimônia de premiação. As justificativas dos jurados, inconvincentes, acabaram causando uma saia justa de comprimento constrangedor.
E o fato do brasileiro "Aquarius" ter ficado de fora da lista dos palmarés nada tem a ver, uma vez que outros favoritos até mais fortes tiveram o mesmo destino. A questão é que, para um único varejo correto, os tropeços no atacado foram imperdoáveis. O ganhador da Palma de Ouro, "I, Daniel Blake", um filme honesto e correto, mas mediano na carreira de seu diretor Ken Loach, foi afinal elevado ao solitário (e até incômodo) posto de salvador da pátria daqueles excluídos.
O Grand Prix ficou com o pernóstico, irritante pós-adolescente canadense, Xavier Dolan, com seu "Juste la Fin du Monnde", show de estridente psicologismo familiar entre quatro paredes, insuportável huis clos. O prêmio de melhor diretor, ex-aequo, ficou para o francês Olivier Assayas, assinando a inútil e pretensiosa fantasmagoria "Personal Shopper", e o romeno Cristian Mungiu por "Graduação". Pior para este, que viu diminuído seu interessante trabalho ao ser equiparado ao ínfimo terror-fashion de Assayas. Mas as maiores bobagens viriam a seguir.
O prêmio de melhor roteiro acabou também em mãos indevidas, as do iraniano Asghar Farhadi, por "The Salesman" – por coincidência o filme que entrou quando a seleção estava já pronta, uma inclusão pela porta dos fundos. E o filme ainda levou mais uma recompensa, a de melhor ator para Shahab Hosseini. Especula-se se o júri tirou férias no dia da exibição de "Toni Erdmann" e não viu o trabalho estupendo do ator austríaco Peter Simonischek. O mesmo vale para o prêmio conferido à atriz filipina Jaclyn Jose, do drama dirigido por Brillante Mendoza. Boa performance como a mãe traficante de drogas para o sustento dos quatro filhos, mas muito, muito distante das estupendas Isabelle Huppert ("Elle", de Paul Verhoeven, outro preterido), Sônia Braga ("Aquarius") e a alemã Sandra Huller ("Toni Erdmann").
O prêmio da Fipresci, a Federeção Internacional dos Críticos de Cinema, deu um toque de classe nas confusões oficiais e premiou como melhor filme o alemão "Toni Erdmann". A mostra paralela Un Certain Regard considerou melhor filme o finlandês "The Happiest Day in the Life of Olli Mäki". E o Brasil acabou levando uma menção do júri de curta metragem pelo filme "A Moça que Dançou com o Diabo".

HERÓIS ANÔNIMOS DE LOACH
Poucos, muitos poucos mesmo (ou talvez até nenhum outro), tem a coerência vocacional, ideológica e artística do veterano e constante cineasta inglês Ken Loach – 13 vezes em competição – levando na já extensa sua segunda Palma de Ouro com este "I , Daniel Blake" – a primeira, de 2006, foi por "Ventos da Liberdade". Este filme pequeno, de orçamento modesto, é mais um da galeria de heróis anônimos da classe trabalhadora de Loach. Mas é também sobre uma mãe solteira com um casal de filhos em condições vulneráveis. Este é mais um olhar questionador, outra debruçada crítica do cineasta sobre o desemprego, a burocracia estatal e a insensibilidade do poder. O velho socialista Loach – 80 anos em junho – mais uma vez é consequente e lúcido, e segue dizendo/mostrando os conflitos que muitos europeus se negam a ver. Seus personagens são nobres, sensíveis e bem intencionados. E seu discurso de agradecimento ao receber a Palma teve forte conteúdo político-humanista. Foi longamente ovacionado.
Para alguns pode parecer que seus filmes contenham um quê de demagogia, de obviedade, que sejam simplistas na proposta. Mas "Eu, Daniel Blake" funciona bem mesmo trilhando caminhos previsíveis, ao contar a história do viúvo Daniel Blake, 59 anos, marceneiro, cardíaco, desempregado, sem perspectivas de recolocação no mercado de trabalho e permanentemente enganado pelo programa de seguro social. Ainda assim, ele faz o que pode para ajudar a jovem mãe solteira excluída e na mesma condição de desempregada, forçada a se prostituir para manter os dois filhos. Afinados ideologicamente, Loach e Paul Laverty, seu roteirista de longa data, constroem sempre um discurso que pode soar démodé, embora necessário, e mantêm nesta parceria uma coerência que grande parte da garotada de digital em punho não tem a mínima ideia do que se trata.

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