No Calçadão de Londrina, palco das apresentações circenses do 20º Festival de Circo da cidade, o palhaço argentino Tomate entreteve o respeitável público que transitava por ali, na sexta-feira (28).

Foi um espetáculo com os marcos típicos de uma apresentação circense, com malabarismo, animais de bexiga e a constante interação com as pessoas que assistiam, fossem elas adultas ou crianças. Contudo, a maior diferença entre a performance de Tomate e a de outros palhaços foi sua acidez, associada tanto à fruta que dá nome ao palhaço quanto ao seu senso de humor.

Enquanto carros de polícia, da prefeitura, bicicletas e outros pedestres interferiam no andamento dos números de Tomate, o artista arrumava alguma forma de integrar os imprevistos na apresentação. “Ele tem muita disponibilidade e sabe escutar tanto adultos quanto crianças. Acho que isso é o mais importante para quem está trabalhando na rua, saber aproveitar os elementos que a rua oferece para você” opina Débora Ishikawa, acrobata que veio para Londrina participar do festival e fez parte de um dos números de Tomate, apesar da crítica irônica do artista: “Não operamos caixa assim, Débora.” Sobre sua experiência como participante do show, a artista relata: “Foi muito legal, muito interessante. Você precisa se atentar ao que ele vai propor, porque é tudo inesperado”.

QUEM É O 'PALHAÇO TOMATE?'

Victor Ávalos, o homem por trás da maquiagem circense, começou a se apresentar nas ruas aos 32 anos. Em entrevista para a FOLHA, Ávalos diz que o personagem que interpretou durante o espetáculo vem de sua própria personalidade e experiência com o público. Esse, no entanto, não é o único personagem do intérprete. “Já fiz um personagem que não fala nada, só faz barulho. O interpretei em 27 países, inclusive na China. Minha necessidade era fazer um personagem que não falava para poder fazer ele em qualquer lugar do mundo.”

A experiência que adquiriu ao longo de sua carreira também fez com que Tomate desenvolvesse a sua própria visão sobre a dramaturgia: “A necessidade se volta à dramaturgia. Se, por exemplo, você tem que arrumar uma cama no seu espetáculo, você já tem o que fazer. É nesse momento em que você precisa pesquisar como se faz, como se arruma aquela cama. A necessidade é a melhor dramaturgia para um palhaço.”

Tomate também comentou sobre como equilibra a atenção dos públicos adulto e infantil durante seus espetáculos: “Eu não faço muita diferença [entre os públicos], preciso trabalhar para todos. Você, com certeza, vai fazer piadas destinadas aos adultos que as piadas não vão entender. No entanto, eles percebem que você fala de algo ‘proibido’ pelo seu tom de voz. Isso os faz rir”.

AS INSPIRAÇÕES

Como disse Victor Ávalos, a necessidade faz o palhaço. Porém, o artista contou as referências que tomou para montar seu personagem. Entre elas, citou The Gashlycrumb Tinies, obra de Edward Gorey que conta histórias tragicômicas sobre a morte prematura de 26 crianças, uma para cada letra do alfabeto. “Consegui o livro e fiz 20 fotocópias dele. Com elas, fiz um trabalho de cut-up. Cortei cabeças, corpos e pernas até chegar naquilo que gostava”. Além disso, disse que a estética das obras Tim Burton contribuíram para a construção do personagem que, nomeando Beetlejuice e O Estranho Mundo de Jack como objetos de estudo durante o processo.

O Festival de Circo de Londrina continua até domingo (30).

* Supervisão: Célia Musilli/ Editora

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