PALESTRA - Na vida como na arte
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de abril de 2004
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Com uma soma de 23 mil títulos de filmes vistos em 30 e poucos anos (ele brinca dizendo que gostaria de esconder o tempo) de carreira Rubens Ewald Filho esteve em Curitiba ontem para uma palestra sobre, é óbvio, cinema. A vinda à capital foi um convite de uma universidade e o local onde Ewald Filho se encontrou com estudantes foi o recém-inaugurado Estação Embratel Convention Center. O tema da palestra não foi pré-estabelecido. Não precisa. Quando o assunto é a sétima arte Ewald Filho deslancha com uma rapidez que só os especialistas ousam ter.
Normalmente faço palestras abertas com muitas perguntas. Deixo as pessoas conduzirem mais do que eu mesmo. Tenho muita experiência de dar aula e fica mais divertido. Eu nunca sei o que me perguntam e como me perguntam, explicou em entrevista exclusiva à Folha, na tarde de segunda-feira, minutos após ter desembarcado na cidade.
Imponente apenas na altura, o jornalista é um exemplo de que crítico pode ser um sujeito bem-humorado. Criado numa família rígida em Santos, interior de São Paulo, Ewald era filho único e desde pequeno refugiou-se nos cinemas para dar vazão aos sonhos reprimidos pela família e pela própria timidez.
Para você ter uma idéia de como eu era reprimido até os cinco anos de vida eu não me lembro de nada na minha infância. Até os nove me lembro porque as pessoas me contaram. Em compensação ele lembra dos filmes que via.
O cinema para minha geração era nossa droga. Não era maconha. Eu sempre digo que cinema para mim é um pouco Rosa Púrpura do Cairo e é um pouco também História Sem Fim.
Morando hoje em Cotia, grande São Paulo, ele ainda guarda os primeiros cadernos onde nasceu o crítico. Eu comecei anotando o nome dos filmes. Depois não sei por que diabos a sala que a gente assiste, o ator e eventualmente o diretor e começo a dar a cotação. Esta pratica vem da leitura sempre assídua em sua vida também de uma extinta revista chamada Filmelândia. Ela novelizava os filmes. Falava em contos. Então você ficava sabendo de todos os filmes. Foi uma grande experiência pois aprendi a memorizar como os filmes começavam e terminam. Isso ficou na minha cabeça.
Tantos cuidados fazem do jornalista hoje uma pessoa que adapta a vida ao cinema. Ao ouvir histórias das vidas dos amigos, quase sempre, Ewald Filho acerta o final. Fico pensando gente será que a pessoa não viu esse filme? brinca, querendo no fundo dizer que, muitas vezes, é a vida que imita a arte.
Rubens Ewald Filho tem um jeito bem claro de tratar com celebridades e certeiro de dar sua opinião sobre cada trabalho que vê. Não faz meandros nem para elogios negativos e não deixa de lourear que se deu bem num papel. Já escreveu novelas, a trama Éramos Seis que passou duas vezes nas telas brasileiras, e já foi executivo quando a HBO tinha escritório no Brasil. Atualmente toca um programa para o governo de São Paulo.
Intitulado Aplauso, o projeto prevê um resgate de grandes monstros do cinema nacional. Escritos em forma de relatos, para acelerar o processo, os livros começam a ser lançados semana que vem na Bienal do Livro em São Paulo. Sob a direção de Rubens Edwald Filho, os apreciadores de biografias vão ter acesso a detalhes preciosos de ícones como Irene Ravache, Ruth de Souza e Sergio Cardoso, entre outros.


