Imagine uma obra literária de referência cujos verbetes dedicados ao Brasil ignorassem escritores do quilate de João Ubaldo Ribeiro, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão, Ivan Ângelo e Paulo Leminski. Pois era nesse estado de omissão que se encontrava o ''Dicionário de Literatura'', criado por Jacinto do Prado Coelho, na década de 50, em Portugal.
''A obra estava defasada desde os anos 70. Mas, agora, ela está voltando atualizada às livrarias'' conta o crítico literário e professor da Universidade de Coimbra, José Luis Pires Laranjeira. O dicionário é publicado pela editora Figueirinhas, da cidade do Porto. Reúne cinco volumes abrangendo as literaturas portuguesa, brasileira, galega e africana.
O projeto de atualização prevê três volumes. Os dois primeiros acabaram de sair da gráfica. O terceiro está previsto para outubro. Laranjeira ficou responsável pelas seções brasileira e africana do título. Hoje, às 19h15, ele ministra uma palestra na Sala de Eventos do Centro de Ciências Humanas (CCH) da UEL para falar sobre a iniciativa, que lhe consumiu 15 meses de pesquisa e redação.
Entrevistado pela Folha2, o professor conta que a empreitada exigiu horas extras de atividade para organizar em ordem alfabética as dezenas de nomes de autores, obras, temas, publicações e movimentos. ''Contei com a ajuda de uma equipe de colaboradores da qual fez parte a docente da UEL Virgínia Gonçalves'' salienta.
Ao todo, o trabalho adicionou 400 novos verbetes à obra, distribuídos entre as literaturas brasileira e africana. Ele explica que esta última não existia até então no título. Além de Laranjeira, a coordenação do Dicionário é feita por Ernestro Rodrigues (literatura portuguesa) e José Viale Moutinho (literatura galega).
Hoje, na UEL, o professor fala ainda do livro ''Máximas Mínimas e Outros Textos'', da escritora africana Suffit Kitab Akenat (1905-1987), para o qual escreveu o texto de apresentação. O volume reúne haikus, provérbios e um texto em forma de prosa poética que cruzam as sabedorias da filosofia zen com mística sufi do Islão. O livro está sendo lançado simultaneamente no Brasil (pela editora Landy) e em Portugal.
Aproveitando a passagem por Londrina, que visita com regularidade (particularmente pelo fato de sua mulher morar na cidade), ele profere amanhã, a partir de 19 horas, a palestra ''Arte, Inconsciente e Consciência Humanista'' no anfiteatro do Ceal/Sinduscon (Av. Maringá, 2.400). Em Portugal, além de dar aulas na Universidade de Coimbra, Laranjeira exercita a crítica literária no Jornal de Letras de Lisboa e dirige uma coleção de ensaios na área da lusofonia para a editora Novo Imbondeiro.
Recentemente, assumiu uma coleção de literatura brasileira na já citada editora Figueirinhas. Sobre esta última, ele fala com entusiasmo de seus planos. Entre os autores que pretende editar nesta temporada figuram nomes como Márcio Souza, Marina Colassanti, Antônio Torres, Edla Van Steen, Marcos Carvalho, Charles Kiefer, Daltron Trevisan, Deonísio da Silva e Jair Ferreira dos Santos.
''Só não abrimos a coleção com o Paulo Leminski porque a Alice Ruiz (ex-mulher do poeta e detentora dos direitos sobre sua obra) está enfrentando problemas com algumas editoras para a liberação dos títulos'' diz. Nesta visita ao Brasil, ele ministra palestras ainda em Porto Alegre (RS), Salvador (BA), Rio de Janeiro e São Paulo. Todas para divulgar o lançamento dos dois volumes atualizados do Dicionário de Literatura.

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