Como que vem a inspiração para escrever um livro? A gente nasce escritora? Quando começou a escrever? Como era no passado? Você é influenciada por outros escritores? Esses são alguns dos questionamentos dos alunos de 5 a 8 série de escolas públicas e particulares que participaram de uma série de palestras realizadas com a escritora Lygia Schrank Araújo, que durante 25 anos deu aulas de português e inglês em diversas escolas da cidade.
Na semana passada, ela esteve com alunos da 7 série do Colégio Marista, convidada para falar sobre o processo criativo e de suas memórias poéticas matéria-prima dos seus três livros publicados. ''Minha Terra em Prosa e Verso'' (2004), ''Moinho do Tempo'' (2003) e ''Pedaço Eleito de Chão'' (2002) homenageiam a cidade de Londrina e falam de um tempo bom da infância. Ao todo 800 alunos do Colégio Marista participaram das palestras, que também serviram de estímulo à leitura. A atividade foi realizada como projeto interdisciplinar envolvendo as disciplinas de história e português.
Lygia não é de Londrina. Veio de São Paulo ainda criança e lembra com detalhes como a cidade no início. ''Tinha onças, macacos, parecia que estávamos na África'', comentou a escritora, para espanto das crianças. A fertilidade do solo era imensa e exuberante com pés de cafés que eram mais que o dobro de uma pessoa. As fotos que comprovam o fato mexem com a imaginação das crianças, que ficam admiradas com tal constatação. ''Como aquilo era possível?'', indagam.
A escritora relata que a história da cidade sempre fez parte do pano de fundo dos seus livros. Ela escreve desde criança, mas só entrou no mercado editorial em 2002, com apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). ''Não é fácil conseguir colocar um livro no mercado. Muita coisa está envolvida no seu processo de criação e vários profissionais são necessários'', explicou a escritora, que ilustrou os seus livros com aquarelas.
Londrina é sua terra natal por escolha, afirma a escritora, e é aqui que está ligada afetivamente e psicologicamente. Fala com orgulho dos passeios que eram feitos em balsas no Rio Tibagi. A diversão na época que ainda não tinha shoppings centers e cinemas era reunir os amigos e parentes e fazer piquenique nas margens do rio. ''Era um programa muito legal e todas as pessoas que vinham de outras cidades queriam fazê-lo'', lembrou Lygia.
Sobre o processo criativo da escrita, Lygia disse que não dá para responder ''matematicamente'' todas as questões que envolvem o assunto. ''Não existe faculdade para 'fazer' um poeta. Dom e inspiração são necessários, mas dom sozinho não faz um profissional. É preciso preparar as ferramentas de trabalho'', aconselhou. E acrescentou: ''escrever não é só relatar. Tudo depende do modo de contar''.
Lygia trabalha com a memória poética dos tempos da infância e da idade adulta. ''Faço crônicas verdadeiras. Não é fantasia'', ressaltou. Na sua opinião, a infância é o período que mais tem fatos que marcam pela vida inteira e disse que o importante é que cada um saiba trabalhar no futuro com o que há de bom e ruim na própria vida através do ''moinho do tempo''.
''No ato de escrever, o primeiro impulso é emocional. A minha escrita é uma memória poética, não é uma memória saudosista. Gosto muito também do tempo presente'', comentou. Ela também relembrou que na sua infância a redação não era tão valorizada na escola como hoje, mas que a sua mãe sempre leu poemas para ela e a irmã.
Para os alunos, ressaltou que a inspiração pode vir das coisas do cotidiano, que precisa ser valorizado. ''Desenvolvam o olhar para não ficar atordoados com tanta informação e míopes para as coisas importantes da vida. Há uma mania de só valorizar o importado, o que está no outro. Apurem esse olhar e sejam capazes de sonhar. Não sonhar como fuga, mas como meta'', deixou como mensagem a escritora, que no final de um um dos seus poemas confessa que o poeta, na verdade, é um ''radar transmissor de beleza''.
A aluna Renata Dias, 13 anos, gostou do que ouviu e enfatizou que a palestra ajudou muito aqueles que pensam em seguir a mesma profissão. ''Eu gosto mais ou menos de redação, mas fiquei com vontade de ler os livros dela. Também achei impressionante a foto com os pés de café gigantes.''
O seu colega Alessandro Bonomo Inácio, 14 anos, também aprovou a iniciativa. ''Foi excelente saber mais sobre a nossa cidade e, se tivesse um túnel no tempo, gostaria de poder viver um pouco nesse passado. Não gosto muito de ler, mas me deu vontade de ler o livro. Sobre a escrita, acho que fica mais fácil quando a gente entende bem o tema'', concluiu.

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