Palco do Sesc Pompéia recebe o "Carnaforró"
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segunda-feira, 19 de abril de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 20 (AE) - Luís Gonzaga gravou seu primeiro baião - intitulado Baião ("Eu vou mostrar pra vocês...") no dia 7 de junho de 1949. Antecipando-se a todos na comemoração do cinquentenário, o compositor baiano Gereba leva ao Sesc Pompéia, em São Paulo, o triplo programa do projeto "Carnaforró", com três convidados de peso: Elba Ramalho (quinta-feira), Mestre Ambrósio (sexta-feira) e Dominguinhos (sábado). Gereba comanda a festa, tocando e cantando nas três noites, à frente da banda Quebra Gereba.
O primeiro "Carnaforró" subiu ao trio elétrico, partindo para a orla marítima de Salvador, em 1986. Levava Dominguinhos e Luís Gonzaga. A idéia foi de Gereba, que viajou até o sítio do Rei do Baião no dia do aniversário dele, em 1985 - um 13 de dezembro - para fazer o convite. Encontrou por lá Dominguinhos e a festa estava montada.
De lá para cá, como se sabe, o axé industrial tomou conta das ruas da capital baiana. "Eu era um daqueles interioranos que alugavam jipe para passar o carnaval na Praça Castro Alves", conta o compositor. "E sonhava ver um trio elétrico de forró descendo as ladeiras". Mas trio elétrico de forró, no carnaval? Bem, deu muito certo, com multidões dançando na orla. Nos últimos dois anos, entretanto, o "Carnaforró" foi banido do carnaval oficial (não por falta de público, mas porque cada centímetro do chão de Salvador está loteado pelos grupos de axé). O Sesc Pompéia faz o resgate.
A festa vai ser na Choperia do Sesc. Os convidados são íntimos da música nordestina, a que se dá o nome genérico de forró - mas é xote, xaxado, baião. São representantes dessa música e seus defensores. A paraibana Elba Ramalho fez-se radical, ao gravar os últimos discos só com música de grandes nomes, novos ou tradicionais, da música do Nordeste, dos diferentes nordestes.
O grupo Mestre Ambrósio, da novíssima geração de músicos pernambucanos, acaba de lançar seu segundo disco - "Fuá na Casa de Cabral" - no Recife. O disco deve estar chegando às lojas até o fim da semana e é ainda mais legitimamente nordestino do que o primeiro trabalho da banda. E mestre Dominguinhos, de todos os chamados "herdeiros de Luís Gonzaga", é o que pode ostentar o título sem necessidade de aspas. Ele também lança disco, no dia 27, no KVA.
Ele é o verdadeiro herdeiro do velho Lua, em cuja homenagem gravou dois CDs, há dois anos, reunindo elenco estelar - de Elba e Ivan Lins a Chico Burque - para cantar as maravilhosas melodias do gênio de Exu. Cada noite começa com a projeção de imagens nas quais Luís Gonzaga fala sobre sua música e seu pai, o sanfoneiro Januário, que tanto cantou. O primeiro número musical de cada noite lembra Gonzaga, mais uma vez, com o prefixo do compositor - "Vai, boiadeiro, que a noite já vem/ Pega seu gado e vai pra junto do seu bem".
Seguem-se músicas de Gonzaga e de autores de seu universo sonoro, de Jackson do Pandeiro a Gordurinha. A banda Quebra Gereba estará acompanhando, além do mestre-de-cerimônias, a cantora Elba Ramalho e o sanfoneiro Dominguinhos. É formada por César do Acordeom e Bombarda (sanfoneiros), Geraldo Silva (triângulo), Farinha (zabumba), Barbosa Albuquerque (pandeiro), Milton de Mori (guitarra baiana), Lau (contrabaixo) e Adriano Busko (bateria). Boa parte desses músicos é gente nova, descoberta por César do Acordeom - e aqui fica mais uma homenagem ao grande músico e descobridor de talentos que, menos conhecido do que Dominguihos ou Elba, faz a sua parte para manter vivo a melhor música nordestina. Festa para fazer mexer pés - e cabeças.


