São Paulo, 17 (AE) - Ah, sim, teve jazz de verdade nesse Free Jazz Festival. Distante do burburinho teen dos shows, numa salinha apelidada charmosamente de Club, foi possível ouvir a velha guarda jazzística. O destaque absoluto foi a apresentação do Roy Haynes Group: o baterista septuagenário, que já tocou ao lado de Charlie Parker, Miles Davis e Thelonius Monk, tirou sons magníficos de sua bateria, da armação de ferro do palco, das baquetas e, para encerrar o show, de si mesmo. Modesto, deu espaço para os colegas notáveis do conjunto, que regia discretamente entre seus pratos e tambores.
Difícil imaginar alguém que consiga, como ele, fazer a bateria "cantar" (talvez, no passado, Max Roach, sua maior influência, em especial na pulsação marcada nos pratos). Haynes faz um jazz nada hermético (digno das big bands em que esteve), um som vivo, intenso. Longe de cortar a fluência do sax, piano e baixo, sua percussão dialoga, animadamente, com esses instrumentos. Aliás, conversa com eles na mesma linguagem, improvisa no estilo de cada um, pois sua sonoridade variava de acordo com quem acompanhava (mais uma lembrança dos tempos em que era a base para os scats de Sarah Vaughan). Delícias. Simpático, pediu que diminuisse a luz do palco, avisando que aquele não era uma mera exibição pirotécnica de bumbos, mas um suave bate-papo de jazzistas. Notável e de um frescor juvenil.
Já George Shearing vai em outra direção. A começar pelo visual do seu quinteto, todos vestidos em smokings, justamente compenetrados para recriar o imortal Shearing sound dos anos 50. Ao piano, Shearing harmoniza cada nota da melodia com um acorde de terça na mão direita, enquanto a mão esquerda dobra o tema uma oita acima. Esse é o famoso locked hads, os acordes blocados. Um vibrafone pega essa nota mais aguda e a repete, deixando a mais grave para ser dobrada pela guitarra. Fácil de pôr em palavras, difícil descrever a sofisticação, o clima cool conseguido pelo compositor de Lullaby of Birdland.
E que, naqueles tempos, foi um furor comercial invejável. Shearing, com um programa de standards (que incluiu uma deliciosa versão de Speak Low, de Kurt Weil), pede silêncio, sala confortável e aquele copinho de uísque para ser saboreado pelo intelecto, mais que pelos sentidos. Tradicional, em cada música faz uma rodada de improvisações entre seus colegas (destaque para um baterista fantástico). Mas é algo inusitado (exigência do Shearing sound) vê-los seguindo a música com partituras, como se algo do inesperado do jazz fosse perdido e, mesmo, calculado.
Só o que não estava no programa era a barulheira das coxias. Shearing perdeu a paciência com gente falando alto nos bastidores e irritou-se com aquele sonzinho de garrafas batendo. "Isso é um absurdo, nunca me ocorreu nada igual antes", desabafou, tentando manter a elegância. Os apelos foram inúteis. Mas, ainda assim, voltou para um curto bis, louco como um João Gilberto em dia de Credicard Hall para voltar para sua querida Nova York. Aos 80 anos, algo combalido, fez sua última apresentação por aqui. "Acho que não nos veremos mais", disse o músico, cego de nascença.

mockup