Alguém pergunta se é cumieira ou cumeeira da casa, digo que é cumeeira pois a palavra vem de cume, a parte alta de morro ou montanha, como a cumeeira está na parte mais alta do telhado; daí fiquei pensando no mundo das palavras, não sei porque.
A palavra "porque" por exemplo, pode ser dita de tantos modos, experimente. Perguntando. Respondendo. Explicando. Enrolando. Ou até mandando: - Porque eu quero e pronto!

Imagem ilustrativa da imagem Palavreando de A a Z
| Foto: Shutterstock



Então lembro de perguntar ao neto Caetano qual a maior das palavras, ele embatuca, revelo: é inconstitucionalissimamente, coisa que no meu tempo todo guri sabia. E ele me pergunta pra que servia saber isso, concordo que é nostalgice minha, sendo nostalgice um neologismo, palavra inventada.

Legal, diz ele, sendo "legal" uma gíria lá do meu tempo de menino, significando coisa boa, nada a ver com estar de acordo com as leis, sentido original da palavra. As palavras se reinventam.
E também se renovam, como "fascismo", que agora ressurge a significar autoritarismo e aversão a mulheres e gays mas, na sua origem italiana, significava coesão, pois vem de "fascio", feixe, união de hastes - como Mussolini sonhou todos os italianos unidos em torno dele (que entretanto acabou sozinho e linchado depois de, tão machista, ter se travestido para escapulir...).

Aliás, travesti vem do Latim/Italiano, disfarçar-se através de vestido, inicialmente coisa de homens atores e carnavalescos lá ainda no século 19, até se consolidar como palavra para homens não só vestidos mas assumidos como mulheres. Entretanto, pode ter sua versão feminina também, como Joana Darc e nossa Maria Quitéria se travestiram de soldados. Assim, também as lésbicas que se vestem masculinamente merecem a palavra travestidas, embora não sejam travestis. A Língua é geniosa com os gêneros.

Velhas palavras ressurgem gloriosamente, como "deletar", que existiu lá no Latim, significando apagar, e depois dormiu muitos séculos, até ser ressuscitada pela informática. E há palavras novas que surgem de parto complicado, como "uatsap" ou, na forma mais antiga (de poucos anos atrás...) "watsup", que vem da expressão inglesa "what´s up?" (que é que há?), ou seja, o celular toca, você vai ver o que há, o zap que chegou. Não confundir com "zap" de "zapear", que vem do Inglês também significando "apagar" e acabou designando o ato de pular de um canal para outro na tevê, assim "apagando" o canal anterior. A Língua tem dessas zoeiras.

Gosto de recriar palavras antigas, como serelepemente e salamelequetal, estrimiliquice, eletroquetrocutado, escorreguinhentança, estrondoloso (aquele estrondo que chega a doer), bobocosidade (bobice oca de tão boba), embora a esta altura você esteja achando isto imbecilinigualável ou simplesmente estúpido, o que faz lembrar "a sua estupidez não lhe deixa ver", de Roberto e Erasmo, o mais impactante verso de amor da Língua).

"Atabalhoadamente" então, não parece que sai da boca aos trancos e barrancos? "Chilique" não parece mesmo estar tendo chilique? "Malícia" não é mistura de mal com delícia? "Pompa" parece tão cheia de si, "esquálido" tão desmilinguido...

Já "concomitantemente" não parece só a forma mais cartorária de dizer "ao mesmo tempo"? Faz lembrar Graciliano Ramos, quando revisor de jornal, de repente deparou numa notícia com a palavra "outrossim". Deu uma tragada funda no seu cigarro sempre à mão e lascou: - Outrossim é a pqp! - daí riscando a palavra. E parece que a praga pegou, porque "outrossim" sumiu pelo menos da língua falada por quem não usa toga.
Então, aproveitando que ainda não existe "outronão", e como dizem to-dos os telejornais, vamos finalizando por aqui.

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