Palavras, sons e imagens
ReproduçãoMario Cravo Neto: TigresaPalavras,
sons e
imagens
Chega às livrarias livro que reúne
letras de Caetano Veloso e obras
de 80 artistas contemporâneos
Nelson Sato
Um cortejo de tietes, detratores, epígonos e desafetos se renova a cada década sob a sombra de Caetano Veloso. Perpetua-se o mito, que nada tem de unanimidade como apregoam alguns, revelando um talento espantoso para gerar controvérsias a cada aparição.
ReproduçãoAngeli: Luz do SolNo momento em que uma nova onda de ataques à sua produção musical recente ganha vigor, ele recebe uma surpreendente homenagem no Rio de Janeiro, colocando suas canções para dialogar com as artes plásticas. Trata-se do projeto A Imagem do Som de Caetano Veloso, no qual 80 artistas de diversas áreas criaram representações visuais para as músicas do autor de Sampa.
Lançado em novembro com a abertura de uma exposição no Paço Imperial, no Rio, o projeto chega agora a um público mais amplo com o lançamento de um livro pela editora Francisco Alves reunindo reproduções das obras dos artistas lado a lado com as letras de Caetano. A idéia partiu do designer gráfico Felipe Taborda, inspirado pelo livro The Beatles Illustrated Lyrics, organizado por Alan Aldridge e publicado em 1970.
ReproduçãoAlexandre Herchcovitch: Baby
O volume reunia alguns dos melhores artistas da época interpretando visualmente composições dos Beatles. Desde então, fascinado por este projeto, fui lentamente desenvolvendo a idéia de fazer algo semelhante no Brasil, conta o curador no texto de apresentação de A Imagem do Som de Caetano Veloso.
Ele acrescenta que pretende dar continuidade à iniciativa homenageando outros compositores brasileiros através de criações de artistas contemporâneos. Caetano, escolhido para inaugurar a série, teve uma pequena participação durante a gestação do trabalho dando o aval para as canções selecionadas. Taborda reuniu gente famosa e outras nem tanto.
Os convidados não puderam escolher as canções, que foram submetidas a um sorteio para evitar eventuais disputas por esta ou aquela música preferida. Entre as celebridades figuram nomes como o teatrólogo Gerald Thomas (a quem coube ilustrar Onde Eu Nasci Passa um Rio), o cartunista Angeli (Luz do Sol), o estilista Alexandre Herchcovitch (Baby), o músico e poeta Arnaldo Antunes (Lua de São Jorge) e o artista plástico Waltércio Caldas (Tá Combinado).
O conjunto da obra é irregular. Houve quem investisse na abordagem literal da letra para compor sua criação. Foi o que fez o artista plástico Siron Franco, concentrando-se no verso final de Drama, que diz Limpo num pano de prato as mãos sujas de sangue das canções. A peça consiste justamente de um pano de prato manchado com as últimas frases da música bordadas sobre os borrões.
A mesma concepção foi adotada por Antonio Peticov. Fiel à letra de Sampa, o artista sobrepôs imagens de ícones evocados na música a partir de uma foto da esquina das avenidas Ipiranga e São João. Dispostos ludicamente entre os prédios, aparecem ali as figuras de Oswald de Andrade, os Novos Baianos, os Mutantes, a fachada do teatro Oficina, a capa do livro PanAmérica (de Agripino de Paula), o poema concretista Viva a Vaia e a inscrição Kaos (numa referência a Jorge Mautner).
A própria imagem de Caetano é explorada em algumas obras ocupando uma página inteira, por exemplo, na foto de Mário Cravo Neto para a música Tigresa. Ele ressurge também nas criações de Elifas Andreato (para Trilhos Urbanos), Marcelo Serpa (Tropicália), Marcelo Suzuki (O Estrangeiro) e Romero Cavalcânti (London London).
Outros trabalhos apresentam interpretações visuais bastante personalizadas com destaque para o cartunista Laerte (Outras Palavras), a videomaker Sandra Kognut (Podres Poderes) e o fotógrafo Jarbas Lopes (Janelas Abertas nº 2).
Segundo o curador, o material exibido ao longo das páginas é a prova da versatilidade de imagens contidas nas letras de Caetano Veloso, do talento dos artistas convidados e da expressiva criatividade que surgiu deste encontro. Estou certo de que ninguém permanecerá indiferente à esta combinação - conclui.
A mostra no Paço Imperial fica em cartaz até o dia 18 de fevereiro. Todas as obras serão leiloadas e doadas pelos artistas, com a verba destinada a uma instituição beneficente. Já o livro, em formato de álbum luxuoso, está à venda a R$ 55,00.





