Palavras fecundadas pela terra
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de outubro de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
A poesia pode nascer de infinitas coisas. Pode brotar de uma pedra, de uma folha caída ao pé de uma quaresmeira. Pode ser retirada das tristezas armazenadas nos cantos da alma, da cor do brilho da alegria. Pode ser destilada do veneno das serpentes do deserto, ou dos sonhos colhidos pela manhã. No caso do poeta irlandês Seamus Heaney, ela nasce nos principais cômodos da casa da memória. Ele retira os componentes básicos de seus versos do bucólico tempo em que viveu no campo, na fazenda do pai, no interior da Irlanda.
Agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1995, Seamus Heaney tornou-se uma das vozes poética da Irlanda, tanto em elementos naturais quando em seus conflitos religiosos e políticos. A Editora Companhia das Letras colocou recentemente nas livrarias a primeira edição brasileira de seus poemas em versão bilíngue.
Com tradução e introdução de José Antonio Arantes, o volume compreende a produção de Seamus Heaney entre 1966 e 1987. Organizada pelo próprio poeta publicada em 1990 sob o título de New Selected Poems: 1966 - 1987, trata-se de uma antologia que abarca sua mais significativa produção.
Nascido na fazenda de seu pai, na Irlanda do Norte, em 1939, Heaney não seguiu o caminho natural de sua família - a agricultura e pecuária. Foi estudar em Belfast e acabou tocado pela arte poética aos 23 anos de idade. Passou a fazer parte do chamado grupo de Belfast que reunia vários poetas locais em ascensão na década de 60. Seguindo a vida acadêmica lecionou em várias universidades irlandesas.
De origem católica, Seamus Heaney manteve uma considerável fidelidade aos temas que aborda em seus versos. O universo bucólico das planície e dos pântanos em que cresceu ocupa espaço cativo em seus poemas. A memória é a nobre matéria-prima de sua literatura. Na exata definição de José Antonio Arantes, construiu uma poesia feita basicamente da reconstrução da experiência vivida, evocada em toda sua riqueza e frescor.
Em Cavar (Digging), o poema que abre o volume, Seamus Healey realiza uma espécie de epígrafe para seu caminho literário subsequente. Descreve-se com uma caneta na mão enquanto olha pela janela o pai cavando, com uma pá, a terra para o plantio. Não podendo negar seu dom literário em favor da tradição familiar pela agricultura, se propõe a realizar com a caneta tudo aquilo que uma pá é capaz de construir: Por Deus, o velho sabia usar uma pá. / Tal qual o velho dele. (...) Mas pá não tenho para seguir como eles. / Entre o dedo e o dedão a caneta / arruda pausa. / Vou cavar com ela.


