O público que está acompanhando a programação do Filo poderá conferir hoje o resultado do primeiro Projeto de Maio concluído este ano. Quatorze alunos do Instituto Londrinense de Educação Para Surdos (Iles) de Londrina participaram da oficina ‘‘Mímica e Interpretação Teatral’’ ministrada pelo Centro Teatral Etc. e Tal, do Rio de Janeiro, e agora mostram o resultado em uma única apresentação. Para o palco, vão levar tudo o que aprenderam em oito dias de oficina, resumido na montagem ‘‘Palavras do Silêncio’’, marcada para 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo.
O Centro Teatral Etc. e Tal é um grupo do Rio de Janeiro com nove anos de estrada. Formado por Álvaro Assad, Melissa Telles Lobo e Márcio Moura, no ano passado participou do Filo com o espetáculo de mímica ‘‘Fulano e Sicrano’’. ‘‘Pela nossa experiência, o festival nos convidou para dar a oficina aos estudantes surdos’’, conta Assad, que junto com Melissa Lobo preparou uma jornada de 45 horas de curso.
Para ministrar a oficina, a dupla estudou a Língua Brasileira dos Sinais (Libras) para facilitar a comunicação. Em sua primeira experiência com surdos, Álvaro e Melissa contam ter encontrado adolescentes, entre 15 e 17 anos, cuja única experiência era a língua dos sinais – gestos que formam uma gramática e um vocabulário gestual próprios. ‘‘Quando chegamos, eles falavam português e Libras. Nós falávamos português e um pouco de Libras. Mas na oficina iríamos falar uma terceira linguagem: a mímica para pantomima, que é toda a história contada sem a palavra’’.
Segundo Assad, os alunos têm grande facilidade com a localização espacial por causa do sentido visual apurado. ‘‘Trabalhamos justamente essa facilidade’’, diz Assad. ‘‘Eles ficaram fascinados com a possibilidade de entender uma situação sem precisar ouvir ou ter os sinais em Libras. Para isso, usamos exercícios que possibilitaram preparar o corpo para criar a ilusão de um objeto no espaço’’, explica o ator.
Desde o dia 1º, com aulas diárias de seis horas, os alunos criaram e desenvolveram pantomimas do cotidiano. Pequenas histórias sem palavras, mas bem-humoradas, lúdicas ou clássicas. ‘‘Não vamos apresentar um espetáculo em silêncio. Temos silêncio, mas também momentos com música e outros com onomatopéias, que mostram a possibilidade do surdo trabalhar com o ouvinte’’.
A grande sacada do trabalho com os jovens surdos, na opinião de Assad, é que o público externo tem o mesmo espanto que os alunos tiveram quando viram os mímicos cariocas. ‘‘Eles ficaram espantados ao entender um ouvinte. E o ouvinte vai ficar fascinado de entendê-los’’, avalia.
Todos os 14 alunos vão conhecer um teatro pela primeira vez. Verão as poltronas, as cortinas e coxias, os camarins, os refletores. Mas o principal é que vão pisar no palco como atores. Felipe Zambroti, 15 anos, descobriu na mímica uma importante ferramenta de desenvolvimento. ‘‘Foi um motivo de grande felicidade ter esse contato com o teatro para mostrar às pessoas o que o surdo é capaz de aprender e mostrar através da expressão facial e corporal’’, conta o garoto, em linguagem de sinais interpretada pela professora Jane Bastos Alves.
Sempre introspectivo, Felipe afirma que aprendeu a se soltar com base nas lições dos mestres mímicos. ‘‘Agora quero adquirir mais conhecimento para participar de um grupo de surdos de mímica e pantomima e, quem sabe, me apresentar no exterior’’, sonha. Ele sente-se emocionado com sua estréia no palco. ‘‘Parece que sou famoso, as pessoas vão me ver. Serei o alvo das atenções. É muita felicidade para mim’’.
Também em sua primeira experiência teatral, Dwanny Helena da Silva, 15 anos, diz que a pantomima possibilitou a ela criar coisas diferentes. ‘‘Vou treinar em casa todo dia sozinha e quando estiver boa nisso aproveito para trazer para os alunos menores’’, afirma Dwanny.
Os mímicos cariocas ficaram impressionados com a dedicação dos alunos. ‘‘O tempo foi curto, mas o suficiente para um primeiro passo. Certamente com um trabalho mais intenso a gente criaria o primeiro grupo de mímicos surdos do Brasil’’, afirma Assad.
Palavras do Silêncio – Resultado do projeto de maio ‘‘Oficina de Mímica e Interpretação’’, ministrada pelo Centro Teatral Etc. e Tal para alunos do Iles. Coordenação: Álvaro Assad e Melissa Telles Lobo.

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