'Palavras do Silêncio' estréia no Zaqueu de Melo
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terça-feira, 08 de maio de 2001
Jackeline Seglin De Londrina 
O público que está acompanhando a programação do Filo poderá conferir hoje o resultado do primeiro Projeto de Maio concluído este ano. Quatorze alunos do Instituto Londrinense de Educação Para Surdos (Iles) de Londrina participaram da oficina Mímica e Interpretação Teatral ministrada pelo Centro Teatral Etc. e Tal, do Rio de Janeiro, e agora mostram o resultado em uma única apresentação. Para o palco, vão levar tudo o que aprenderam em oito dias de oficina, resumido na montagem Palavras do Silêncio, marcada para 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo.
O Centro Teatral Etc. e Tal é um grupo do Rio de Janeiro com nove anos de estrada. Formado por Álvaro Assad, Melissa Telles Lobo e Márcio Moura, no ano passado participou do Filo com o espetáculo de mímica Fulano e Sicrano. Pela nossa experiência, o festival nos convidou para dar a oficina aos estudantes surdos, conta Assad, que junto com Melissa Lobo preparou uma jornada de 45 horas de curso.
Para ministrar a oficina, a dupla estudou a Língua Brasileira dos Sinais (Libras) para facilitar a comunicação. Em sua primeira experiência com surdos, Álvaro e Melissa contam ter encontrado adolescentes, entre 15 e 17 anos, cuja única experiência era a língua dos sinais gestos que formam uma gramática e um vocabulário gestual próprios. Quando chegamos, eles falavam português e Libras. Nós falávamos português e um pouco de Libras. Mas na oficina iríamos falar uma terceira linguagem: a mímica para pantomima, que é toda a história contada sem a palavra.
Segundo Assad, os alunos têm grande facilidade com a localização espacial por causa do sentido visual apurado. Trabalhamos justamente essa facilidade, diz Assad. Eles ficaram fascinados com a possibilidade de entender uma situação sem precisar ouvir ou ter os sinais em Libras. Para isso, usamos exercícios que possibilitaram preparar o corpo para criar a ilusão de um objeto no espaço, explica o ator.
Desde o dia 1º, com aulas diárias de seis horas, os alunos criaram e desenvolveram pantomimas do cotidiano. Pequenas histórias sem palavras, mas bem-humoradas, lúdicas ou clássicas. Não vamos apresentar um espetáculo em silêncio. Temos silêncio, mas também momentos com música e outros com onomatopéias, que mostram a possibilidade do surdo trabalhar com o ouvinte.
A grande sacada do trabalho com os jovens surdos, na opinião de Assad, é que o público externo tem o mesmo espanto que os alunos tiveram quando viram os mímicos cariocas. Eles ficaram espantados ao entender um ouvinte. E o ouvinte vai ficar fascinado de entendê-los, avalia.
Todos os 14 alunos vão conhecer um teatro pela primeira vez. Verão as poltronas, as cortinas e coxias, os camarins, os refletores. Mas o principal é que vão pisar no palco como atores. Felipe Zambroti, 15 anos, descobriu na mímica uma importante ferramenta de desenvolvimento. Foi um motivo de grande felicidade ter esse contato com o teatro para mostrar às pessoas o que o surdo é capaz de aprender e mostrar através da expressão facial e corporal, conta o garoto, em linguagem de sinais interpretada pela professora Jane Bastos Alves.
Sempre introspectivo, Felipe afirma que aprendeu a se soltar com base nas lições dos mestres mímicos. Agora quero adquirir mais conhecimento para participar de um grupo de surdos de mímica e pantomima e, quem sabe, me apresentar no exterior, sonha. Ele sente-se emocionado com sua estréia no palco. Parece que sou famoso, as pessoas vão me ver. Serei o alvo das atenções. É muita felicidade para mim.
Também em sua primeira experiência teatral, Dwanny Helena da Silva, 15 anos, diz que a pantomima possibilitou a ela criar coisas diferentes. Vou treinar em casa todo dia sozinha e quando estiver boa nisso aproveito para trazer para os alunos menores, afirma Dwanny.
Os mímicos cariocas ficaram impressionados com a dedicação dos alunos. O tempo foi curto, mas o suficiente para um primeiro passo. Certamente com um trabalho mais intenso a gente criaria o primeiro grupo de mímicos surdos do Brasil, afirma Assad.
Palavras do Silêncio Resultado do projeto de maio Oficina de Mímica e Interpretação, ministrada pelo Centro Teatral Etc. e Tal para alunos do Iles. Coordenação: Álvaro Assad e Melissa Telles Lobo.


