PALAVRAS DO OPRIMIDO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de julho de 1998
Nelson Sato 
Entrevistas longas costumam render memoráveis perfis dos entrevistados. No caso de personagens oriundos do mundo das idéias, o enfoque das perguntas quase sempre se desloca para a exposição de seu pensamento.
O livro Conversação Libertária com Paulo Freire, recém-lançado pela editora Imaginário, percorre a trajetória do renomado educador morto no ano passado, numa exaustiva bateria de perguntas e respostas que oferece ao leitor não só uma minibiografia introdutória como um amplo painel de suas reflexões.
Sabatinado por Edson Passetti, Freire reapresenta as teorias e práticas pedagógicas que o transformaram em um dos poucos brasileiros com uma contribuição original fornecida ao mundo. O depoimento foi colhido há três anos para uma publicação italiana, com o objetivo de apresentar sua obra aos anarquistas daquele país, numa prova de que seu legado continua gerando seguidores.
Na verdade, o autor de Pedagogia do Oprimido possui mais reconhecimento no exterior do que no Brasil. Seu famoso método de alfabetização já rodou o mundo fascinando gerações de educadores, sociólogos, historiadores, filósofos, assistentes sociais e profissionais da saúde.
O método consistia em integrar a consciência política e o aprendizado da escrita em uma mesma moldura. Na abordagem, o aluno teria sempre algo a ensinar ao professor e um analfabeto era reconhecido como um produtor específico de cultura. É essa pedagogia política que a maioria das 120 páginas do livro trata de reconstituir através de um rico depoimento onde não faltam opiniões sobre aborto, legalização das drogas, juventude, sexualidade, maio de 68, marxismo, revolução e outros temas não menos estimulantes.


