PALAVRAS DIRECIONADAS
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de setembro de 2000
Francelino França De Londrina 
Tem crescido com auxílio de conta-gotas o número de lançamentos editoriais destinados ao público GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), focalizando cultura, informação e conscientização. Se comparada à avalanche que chega ao mercado americano, por aqui a quantidade anda de mãos dadas com a timidez. No site da Amazom.com, por exemplo, despontam 1.412 títulos versando diretamente sobre o assunto, ou simplesmente roçando o mundo GLS.
Dentre os lançamentos brasileiros, os temas abordados são os mais variados, abrangendo desde AIDS, Direito, DSTs, orientação a jovens homossexuais, aos pais, além de sexo seguro entre homossexuais. Romances e contos também inflam a imaginação dos leitores. A Bahia, pode-se afirmar, é um mercado à parte, com títulos circulando apenas no mercado baiano. Isso graças a atuação do Grupo Gay da Bahia, que tem como porta-voz Luiz Mott.
A Editora Record apostou no assunto colocando nas livrarias de todo país a reedição de Devassos no Paraíso, um amplo estudo sócio-antropológico do escritor, diretor, roteirista de cinema e jornalista João Silvério Trevisan. O livro desvenda a homossexualidade no Brasil a partir de 1591, com o Santo Ofício preocupado em punir os sodomitas e desponta no multifacetado e conturbado universo gay desse século crepuscular. Nessa edição revisada e ampliada a primeira surgiu em 1986 Devassos no Paraíso agrega novas informações sobre as grandes mudanças ocorridas no Brasil, principalmente relacionadas à disseminação da Aids. Alguns dados sobre o lesbianismo foram incluídos no livro, como um capítulo sobre o relacionamento da poetiza americana Elizabeth Bishop com a arquiteta brasileira Lota Macedo Soares.
Trevisan dá visibilidade ao ativismo homossexual na década de 90, reservando um capítulo aos cantores pop Cazuza, Renato Russo, Edson Cordeiro e Cássia Eller, figuras emblemáticas da nova geração de homossexuais. Um dos capítulos mais perturbadores relata a vivência homossexual dos índios brasileiros na atualidade e na Colônia.
A verdade é que a civilização sempre precisou de reservatórios negativos que possam funcionar como bodes expiatórios nos momentos de crise e mal-estar, quando então, por um mecanismo de projeção, ela ataca esses bolsões tacitamente tolerados. Em outras palavras, sempre que a minha situação não tem saída, a saída é atacar o mal fora de mim, destaca Trevisan.
Farejando a sedenta demanda gay por literatura, a Edições GLS traz em seu catálogo 21 títulos, entre romances, auto-ajuda, contos eróticos, lesbianismo e transexualidade. Como GLS, a editora abre o leque para os simpatizantes, ou seja, pais, amigos, parentes, profissionais que prestam atendimento psicológico e de saúde a pessoas pertencentes a minorias sexuais.
Auto-estima para homossexuais um guia para o amor próprio escrito pelo psicólogo americano Kimeron Hardin, encabeça os lançamentos da GLS. O livro também serve de auxílio para quem se sente oprimido em seu ambiente de trabalho, tem dificuldade de se assumir perante a família ou vem tendo um série de relacionamento superficiais ou infelizes. O processo de aprender a amar a si mesmo significa não apenas aprender a aceitar quem se é, mas também mudar comportamentos e hábitos autodestrutivos, ensina o autor.
Hardin aconselha ao homossexual tomar consciência da voz interior, principalmente quando se está triste, irado, ansioso. O autor aponta os caminhos para fazer o reconhecimento quando se está perpetuando os padrões negativos da educação familiar. Optando pela terapia comportamental cognitiva, Hardin ressalta que a ferida do abuso emocional provoca o mesmo efeito na auto-estima que o abuso físico ou sexual.
Para ele, é possível sentir-se forte, seguro e capacitado e, mesmo assim, ainda ter eventuais dilemas com a auto-estima. Por isso, esse processo de resgate se dá por toda a vida. O psicólogo identifica que uma das maiores carências das pessoas com auto-estima deficiente é a falta de uma vida espiritual bem desenvolvida. O terceiro capítulo reserva alguns caminhos práticos para reverter a situação da auto-estima.
Ainda pela Edições GLS saiu o primeiro romance transgênero da literatura brasileira, Nicola, escrito pelo paulista Danilo Angrimani. O personagem principal do livro vive fora dos padrões sexuais da nossa sociedade. O professor N.A., 40 anos, se vê refletido no espelho como uma mulher perturbadora, de lábios pintados de vermelho.
No arquivo de um computador Ele (a) o professor faz toda a revelação. Um ato falho. Helena, a esposa abriu o arquivo e percorreu o caminho underground que Nicola (alter-ego do marido) se esgueirava, às vezes, como Nicole. O romance é uma peregrinação ao submundo alucinado de um personagem brigando com a natureza e as convenções sociais.
O autor Danilo Angrimani não optou por literatura vulgar. No entanto, tateou por uma linguagem artificial, por vezes, gélida. Ao tentar descrever as preferências sexuais do professor e sua esposa, conseguiu apenas fazer um romance virtual, tangenciando a psiquê de uma mulher fálica.


